Como era até previsível, o presidente da França, Jacques Chirac, teve de enfrentar, no contato com empresários da Fiesp, em São Paulo, o questionamento sobre a política protecionista de seu governo aos agricultores, o que dificulta o acesso de produtos de outros países (entre os quais o Brasil) no mercado gaulês. A resposta de Chirac também é conhecida: a França, como os demais países europeus, enfrenta sérias dificuldades em face das reivindicações dos produtores rurais, que tem muita força ali, e que sem subsídios podem perder mercado.
É uma realidade que o Brasil conhece, mas que precisa ser colocada de modo claro, ainda mais no atual estágio das relações mundiais, com os países mais desenvolvidos pretendendo impor aos demais normas que não seguem, criando com isso situações constrangedoras e prejudiciais. É certo que incumbe às autoridades nacionais também proteger os interesses internos, mas é fora de dúvida que a nova realidade que se impõe ao mundo reclama políticas diferentes, claras e principalmente honestas, com plena reciprocidade. A época do predomínio colonialista já foi e hoje é necessária a adoção de normas diferentes para que os povos se relacionem.
O presidente francês não escondeu que o principal objetivo de sua visita é o de estreitar os laços comerciais com o Brasil. O projeto é ainda mais amplo: a França quer ter participação maior no Continente e pretende até disputar este crescente mercado com os Estados Unidos. São objetivos plenamente normais e mostram salutar mudança no pensamento oficial francês, dando a impressão de que está sendo superada a tradicional política de isolamento da antiga potência européia. Não deixa de ser interessante perceber que esta mudança de rumos na política oficial francesa vem a reboque de investimentos de empresários daquele país no Brasil, em especial no Paraná. São os empresários, hoje, no mundo, os precursores desta nova ordem comercial, abrindo mercados e investindo em áreas potencialmente ricas, caso do Brasil.
França e Brasil podem fazer muitas e profícuas parcerias, como está acontecendo em algumas esferas. Entretanto, é fundamental que haja transparência e sinceridade nestas relações. As afirmativas do sr. Chirac, por exemplo, relativas à possibilidade de se alterar a formação do Conselho de Segurança das Nações Unidas para se incluir o Brasil naquele organismo, com assento permanente, devem ser observadas com certo ceticismo. Não é o que interessa ao Brasil primordialmente. Em certo sentido, este tipo de aceno lembra os berloques que os colonizadores trouxeram nos tempos da descoberta para embair os índios. A representação brasileira na ONU, ou até mesmo a eventual possibilidade de o Brasil ser convidado a participar do G-7, o grupo dos países mais ricos do mundo, são coisas que podem ser atingidas como resultado do próprio desenvolvimento nacional. O que se precisa é outra coisa: é a reciprocidade, o intercâmbio, a criação de condições para que de fato Brasil e França sejam parceiros.
Brasil e França podem realizar juntos excelente trabalho em benefício comum. E é certo que o sr. Chirac já percebeu que a nova realidade mundial exige mudanças de posicionamento gerais. A França, inegavelmente depositária da cultura ocidental, luta para recuperar o papel que já desempenhou como potência no mundo. Para que isto ocorra, será preciso mais que belas palavras ou promessas de posições nos foros mundiais. O toque dos empresários brasileiros deve ter mostrado alguma coisa ao visitante. A disposição dos empresários franceses em investir aqui também é muito elucidativa. Espera-se que o presidente francês possa tirar bons proveitos destas lições.

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