Editorial
Levantamento em nível nacional revela que os preços atualmente em quase todo o País apresentam certa unidade. É possível comprar uma televisão no Recife ou em Porto Alegre praticamente pelo mesmo preço, com condições também parecidas, o que se aplica a ampla variedade dos chamados produtos duráveis. Esta situação, que pode causar ainda mais surpresas em face da extensão territorial do Brasil, decorre basicamente da estabilidade da moeda. Na época da inflação exacerbada, a realidade era outra, podendo-se, por incrível que pareça, verificar diferenças que chegavam a 100%.
A economia quase estável e a moeda forte acabam por propiciar condições excepcionais para o consumidor, em qualquer região brasileira. Esta realidade produz como consequência imediata situação importante para o chamado comércio local. Significa, fundamentalmente, que não é preciso, como no passado, ir comprar qualquer coisa - incluindo roupas, artigo que representou sempre um bom apelo para o comércio informal -, fora da cidade de origem. Isto representa a valorização do comércio local, sem dúvida um ponto de partida dos mais importantes dentro de uma filosofia concreta de estímulo ao desenvolvimento interno.
Com efeito, sempre que se discutem questões ligadas aos mais sérios problemas do País - e isto vale para todas as regiões -, coloca-se a falta de emprego como um dos pontos efetivamente vitais. E na análise subsequente surgem os reclamos por políticas capazes de atrair investimentos industriais, considerados importantes porque criam mais empregos diretos e indiretos, o que é verdadeiro.
Todavia, falta nesta análise a percepção de que o comércio pode ser fator de igual importância na geração de empregos. Um pequeno estabelecimento comercial não emprega tanto quanto uma grande indústria, embora no primeiro caso o investimento seja muito mais fácil. E a multiplicação possível de casas de comércio acaba se revelando positiva, inclusive porque há diversificação maior na oferta.
O que mais chama a atenção é perceber que apesar da estabilidade nos preços, o frete pode representar o diferencial capaz de alterar este equilíbrio. Com efeito, um produto que precisa ser transportado de São Paulo ao Ceará fica mais caro, ainda mais quando se sabe que a maior parte do transporte é feita pelo meio mais oneroso, o rodoviário. Entretanto, aí entra em cena outro fator, o ICMS, imposto estadual. O ICMS menor compensa o frete maior. E como o interesse é interno, uma vez que se trata de criar condições mais propícias ao consumidor, é questão que não afeta os Estados vizinhos. Para completar, como destacam alguns industriais, o fator adicional para manter os preços é estabelecido pela concorrência.
Com tudo isto, há um novo quadro a ser percebido no comércio nacional. E, paralelamente, esta situação é mais do que adequada para que se pense com carinho em políticas estaduais, regionais e até locais de estímulo aos investimentos no comércio. Tanto os governos estaduais como os municipais podem fazer muita coisa nesse sentido. E há também a participação possível das Associações Comerciais, que existem em praticamente todos os municípios (algumas já agregando também a indústria, o que não altera a parte fundamental do assunto), e que igualmente podem ajudar no estímulo ao surgimento de empreendimentos na sua área específica. Países mais adiantados, com economia estável, usam deste recurso do estímulo local como fator de crescimento. O Brasil já pode também fazer o mesmo, diante dos resultados positivos de seu projeto de estabilização.





