Exatamente agora, quando o Congresso Nacional está em vias de aprovar a emenda constitucional que permite que detentores de cargos de Executivo se candidatem à reeleição, é no mínimo educativo acompanhar o escândalo que está ocorrendo nos Estados Unidos, com denúncias sobre atitudes pouco éticas do presidente Bill Clinton em sua campanha para conquistar o segundo mandato. As revelações estão atingindo tamanha magnitude que começam a paralisar o próprio governo, e os respingos já atingem também o herdeiro natural de Clinton, o vice-presidente Al Gore, que há pouco tempo era apontado como ‘‘o homem limpo’’.
Até agora, as denúncias envolvem principalmente o uso de manobras pelo menos antiéticas para conseguir fundos para a campanha, além de alguns tipos de presentes especiais para os maiores contribuintes. Nada que, como Clinton tem repetido exaustivamente, possa ser considerado ilegal. Mesmo porque os seus rivais, do Partido Republicano, também não podem apresentar imagem melhor de suas campanhas. Parece difícil que o presidente venha a sofrer algum processo, embora haja algumas denúncias sérias sobre doações de estrangeiros, o que comprometeria muito o governo.
Entretanto, se Clinton não precisa temer a perda do mandato, que tanto lhe custou conquistar, é certo que todas as denúncias prejudicam a sua imagem, além de causarem sérios danos à própria administração. Em vez de se preocupar com seu trabalho, o presidente tem que se dedicar à defesa do mandato e de seus atos - e também dos seus companheiros - o que acaba sendo prejudicial à administração.
O que interessa mais é perceber como a ânsia de se manter no poder pode levar os políticos a atitudes discutíveis ou condenáveis. Segundo se informa, o presidente Clinton permitiu até que se convidasse grandes contribuintes da campanha para dormir na Casa Branca. Revelou-se até que havia um verdadeiro escalonamento a respeito: contribuições pequenas davam direito a tomar o breakfast com o presidente. Um pouco maiores, permitiam que o contribuinte participasse dos exercícios presidenciais matutinos. E as polpudas garantiam a honra de passar a noite no dormitório que foi usado pelo legendário presidente Lincoln.
O que vai acontecer com o presidente norte-americano ou com seu eventual e possível candidato à sucessão, o vice-presidente Al Gore, é problema que afeta os seus conterrâneos. Entretanto, a lição nos serve. É importante perceber o perigo latente desta situação que vai ser criada com a quase certa aprovação da emenda da reeleição. Afirma-se, com razão, que existem leis bastante concretas que evitam os eventuais abusos dos detentores do poder que sejam candidatos à reeleição. O problema porém não é só o da existência das leis, mas de sua aplicação. Além disso, como os fatos envolvendo Bill Clinton revelam, pode-se fazer muita coisa imoral que não seja considerada ilegal.
Por outro lado, há os que afirmam que mesmo sem a possibilidade de um titular do Executivo concorrer à reeleição, tem havido denúncias de favorecimento do ocupante do cargo ao seu eventual candidato. Do mesmo modo, sempre surgem acusações relativas ao chamado uso da máquina oficial, uma questão de difícil comprovação. É certo, porém, que com a possibilidade de suceder a si próprio, o ocupante do Executivo terá mais condições de usar o cargo, sem que isto constitua algo ilegal. Pode haver um tipo de concorrência desleal diante dos demais candidatos. A questão, dada sua magnitude, deve merecer uma análise mais aprofundada, em defesa principalmente da legitimidade da representação popular.

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