A anunciada perspectiva relativa a safra de grãos da ordem de 81 milhões de toneladas, além da natural euforia, provocou também forte preocupação. Acontece que o Brasil tem plenas condições de produzir aquele total e muito mais, bastando para isto que haja apoio efetivo ao campo, o que inclui não só empréstimos e garantias, mas também assessoria técnica para melhoria da produtividade. Entretanto, não existem condições para armazenar este volume de produção. Tanto isto é correto que o anúncio deste verdadeiro sucesso do campo já provocou intensa movimentação dos setores oficiais, justamente visando encontrar alternativas para safra tão grande. Algumas medidas emergenciais já foram anunciadas, outras serão adotadas e não será surpresa se se repetir este ano o espetáculo visto em épocas similares, com a produção agrícola armazenada nos mais absurdos lugares.
O que fica evidente no caso é que não se pode tentar provocar uma explosão em determinado setor sem cuidar de todas as consequências. No campo, como na cidade e em qualquer setor da atividade humana, é preciso que as coisas sejam feitas de modo ordenado e paralelo. Produzir mais, no caso da agricultura, é apenas parte do espectro econômico, que exige condições de armazenagem e reclama, igualmente, possibilidades de escoamento, devendo-se pensar ainda em termos de mercado. O crescimento econômico não pode ser capenga, sob pena de acabar provocando em alguns casos mais prejuízos que benefícios.
No que tange especificamente à produção, há muito se reclamam medidas mais simples de planejamento global, que incluem desde a melhor orientação para o produtor no sentido de evitar desperdício (um programa que volta a ser desenvolvido no Brasil), até a armazenagem e transporte, culminando com o necessário estudo do mercado para evitar que eventual superprodução acabe por aviltar os preços. Sem uma política que tenha visão ampla a respeito de todo o processo, o êxito em um setor pode se converter em problema e dificuldade.
O mesmo, naturalmente, ocorre também na vida urbana. Todo o processo econômico tem que se desenvolver ordenadamente, sob pena de ocorrerem explosões de consumo - como nos primeiros tempos de vários planos econômicos -, que ameaçam o processo todo devido à pressão provocada pela deficiência na produção. É preciso que as coisas se encaminhem paralelamente, que haja estímulo à produção ao lado de uma política capaz de evitar faltas ou excessos.
Naturalmente, uma safra maior do que a esperada, como se anuncia, representa problema bem melhor para a administração do que quebras na produção. Todavia, é certo que não se pode manter o tipo de ação costumeira em que as autoridades só procuram resolver os problemas depois que eles surgem, como no caso atual. É preciso que haja previsão e antecipação até em relação às dificuldades que possam entravar o processo. Infelizmente, embora já tenha havido importantes mudanças no procedimento oficial a respeito, ainda ocorrem sérios problemas tanto na época da produção como na da comercialização.
É no campo que o Brasil vai encontrar a resposta para os problemas de seu povo. Esta é uma citação bastante repetida, mas que nem por isto é menos válida. O que se reclama para que isto se torne realidade é que haja política clara, constante e firme para o setor todo. E isso começa pelo apoio ao produtor rural, passa pelo atendimento técnico que permite melhor produtividade da terra e vai à questão de armazenagem e escoamento, concluindo-se com uma efetiva análise de mercado.

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