Editorial
Em meio às muitas variáveis da crise econômica que hoje envolve o Brasil, há uma que merece atenção especial pelo que traz de oportunismo e desrespeito com os consumidores. Os aumentos de preços, como o País vem observando em vários setores, traduzem uma ação descabida por parte daqueles que vêem no período de dificuldades a chance de lucrar às custas do sacrifício da população. Diariamente, nos meios de comunicação, surgem situações novas em que diferentes setores de atividades reajustam preços sem explicações convicentes. A desvalorização do real trouxe, de fato, uma nova realidade: a importação de insumos torna-se mais cara para alguns setores, ao mesmo tempo em que, para outros, favorece a exportação. Mas os aumentos internos vêm envolvendo áreas cujas cadeias produtivas não têm nenhuma relação com a moeda norte-americana, denunciando aí um total descompromisso com o período delicado que o País atravessa.
Em momentos diversos da história recente, a população brasileira deu mostras suficientes de sua maturidade diante de situações semelhantes. É o próprio consumidor quem detém a maior arma contra os abusos de que é vítima, ao simplesmente ignorar os produtos aumentados criminosamente. Estes reajustes chegam a lembrar os tempos terríveis em que as máquinas de remarcação trabalhavam nervosamente na calada da noite. Felizmente, no Brasil de hoje, já não há mais espaço para tamanhos disparates. Em todo o País estão surgindo movimentos espontâneos dos consumidores para acompanhar os preços, fazer listas, denunciar. Entidades também se organizam e o governo promete agir com rigor.
Na sexta-feira, entidades que compõem o movimento Pacto Londrina anunciaram a realização de avaliações periódicas da cadeia produtiva de vários setores, justamente para evitar que os fornecedores repassem altas injustificadas em prejuízo do consumidor. Eis aí uma boa mostra de como a sociedade se organiza contra quem a desrespeita. Tanto assim, que a ação em Londrina concentra representantes de sindicatos patronais ligados à construção civil, agropecuária, indústria e comércio. A meta maior é justamente contribuir para a estabilidade da moeda e impedir que oportunistas destruam o que foi conseguido com muito sacrifício nos últimos anos.
Mesmo o governo está sendo obrigado a vir a público para atacar duramente setores pesados da economia, que igualmente se valem das instabilidades do momento para tentar fazer valer aumentos indevidos. A iniciativa das montadoras em anunciar novos reajustes nos preços dos veículos pode, inclusive, inviabilizar as negociações com o governo para redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis. A equipe econômica avalia, com razão, que os aumentos anunciados recentemente pela indústria automobilística são absolutamente fora de propósito e quebram a confiança necessária para o avanço das negociações. Revides assim são fundamentais para desencorajar outros setores a seguir pelo mesmo caminho. Cabe ao governo - até para sua própria credibilidade - o papel de agir com rigor nos segmentos que desrespeitam a ordem econômica e colocam o país em risco, precipitando uma alta inflacionária de consequências devastadoras, como bem sabem os brasileiros.
Ao mesmo tempo, chama atenção e merece apoio a decisão de vários segmentos produtivos, como redes de supermercados e indústria farmacêutica, que não se deixaram levar pelo vendaval econômico. Ao contrário, publicamente anunciam não apenas que não farão qualquer reajuste, como, no caso do setor de remédios, recuam em aumentos feitos após a devalorização do real. Recuar, por reconhecer o erro, é uma atitude tão nobre quanto a dos que, já de antemão, não viram na crise a chance de tirar vantagem. A reação da população, das entidades e do governo é uma demonstração clara de que as viúvas da inflação não terão vez num País que busca forças para superar as dificuldades e conquistar tempos melhores para todos.





