Editorial
O Brasil, e mais especificamente o Rio de Janeiro, acabou eliminado já na primeira seleção das cidades que disputam o direito de sediar as Olimpíadas de 2004. Todo o trabalho feito no sentido de sensibilizar os responsáveis pela escolha não teve sucesso, apesar das esperanças mantidas até o final. E embora tenha havido oposição bem maior do que a divulgada, já que muita gente considera que o Brasil tem problemas muito sérios, não devendo, portanto, desviar sua atenção e principalmente seus recursos para coisas aparentemente supérfluas, a desclassificação preliminar provocou tristeza e indagações. Aparentemente, a imagem brasileira no exterior continua a ser muito negativa, de tal modo que o Rio foi preterido, enquanto Cidade do Cabo, na África do Sul, e Buenos Aires, na Argentina, acabaram passando para a segunda etapa.
Afirmar que sediar uma Olimpíada representa ônus elevado é observar o problema apenas por um lado. Na realidade, há enormes gastos, mas eles não devem ser vistos apenas como despesas e sim como investimento. Existe um retorno muito grande tanto no que diz respeito à divulgação da cidade-sede do País a que pertence, como também há elevado lucro em consequência de tudo o que envolve o evento. As melhorias que se fazem para abrigar a competição, os locais preparados para as disputas, os alojamentos, tudo o que se faz, enfim, acaba ficando para a cidade, para seus moradores. Uma boa promoção fica também através dos tempos. Basta lembrar que em 100 anos de Jogos Olímpicos, apenas pouco mais de 20 cidades sediaram o evento. E até hoje - e enquanto persistir a atual civilização - tanto as competições como as cidades-sede serão evocadas e lembradas, um dividendo adicional e incalculável sobre o investimento que se possa fazer.
Apesar das palavras de consolação proferidas pelo responsável sobre as cidades que não foram escolhidas, persiste o sentimento de rejeição que não atinge só o Rio, mas o Brasil. Ao mesmo tempo, é óbvio que esta situação deve servir como lição e estímulo. O Rio será certamente candidato à sede das Olimpíadas de 2008, o que é uma pretensão legítima. E tudo o que aconteceu até agora deve servir para orientar o que se fará. Os projetos sociais que faziam parte da ampla mobilização com vistas a 2004 devem ser implementados. O Brasil todo tem que se envolver no processo, até porque não é só a imagem do Rio que fica em evidência em semelhante oportunidade.
Perdeu-se uma batalha, mas a luta continua. O trabalho realizado foi útil, inclusive porque criou ao longo dos últimos meses um espírito de união muito grande. Uma das coisas que foi destacada na proposta brasileira de sediar os Jogos de 2004 foi, precisamente, a grande adesão do povo carioca. Esta união precisa ser estimulada, fomentada e ampliada. O Brasil já foi por muito tempo o país do futuro. Está chegando a hora de se tornar o país do presente, da realização, do progresso. E isto também se fará através da união cada vez maior de seu povo, seja na tentativa de sediar uma competição do nível das Olimpíadas, seja com projetos mais ambiciosos destinados a resgatar a imensa dívida social que existe em relação a si próprio.
Se o Rio não foi considerado suficientemente capaz de sediar os Jogos Olímpicos de 2004, se o Brasil ainda não conseguiu ser visto lá fora como os brasileiros o querem, isto apenas deve servir como desafio. É preciso que persista o espírito que surgiu nos últimos tempos e que está transformando a realidade brasileira até que o mundo comece a ver a nova imagem deste nosso Brasil.





