Editorial
A notícia parece ser procedente de outro país: as roupas de inverno devem chegar às lojas com preços menores do que os praticados há um ano. A queda, conforme as previsões, deve ficar em torno de 10%. Por incrível que possa parecer, a informação diz respeito ao Brasil e foi divulgada pelo presidente da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), Roberto Chadad.
Como, ao longo dos últimos doze meses, a inflação se comportou e ficou pela casa dos 10%, era de se esperar que à chegada do inverno as roupas apresentassem, na melhor das hipóteses, correção de preços em torno daquele percentual, o que já seria considerado bom, em face das experiências brasileiras do passado, quando os preços dos vestuários figuravam entre os maiores vilões da inflação. Porém, baixa nos preços em comparação com o ano passado, parece incrível, mesmo diante do sucesso que o programa de estabilização vem obtendo.
Conforme explicou o titular da Abravest, há explicações para isto. Algumas até algo inesperadas. Assim, entre outras coisas, as confecções substituíram insumos importados por matérias-primas nacionais, mais baratas. No que tange à importação, virão muitos artigos do Uruguai e da Argentina, importantes fabricantes de roupas. Paralelamente, há a considerar a ação das empresas nacionais, que tiveram de enfrentar a pesada concorrência externa e foram praticamente obrigadas a mudar seu modo de trabalhar para poder concorrer com os importados.
Comenta-se, com alguma razão, que o Brasil foi muito longe nas importações, abrindo demais e rapidamente o mercado. De fato, isto aconteceu em alguns setores e provocou sérios problemas. Entretanto, é certo que os anos de proteção à indústria nacional, com as restrições imensas às importações, se ajudaram de um lado, prejudicaram de outro. Sem a concorrência externa, muitos simplesmente se despreocuparam em melhorar procedimentos, em adotar medidas capazes de diminuir custos a fim de beneficiar o consumidor. A situação inflacionária não estimulava investimentos em máquinas ou qualquer outro tipo de ação destinada a racionalizar a produção ou reduzir despesas. A inflação consumia tudo.
O programa de estabilização trouxe, além de uma nova mentalidade, alguns desafios à indústria da confecção. Para conter preços, houve abertura muito ampla na importação de roupas e tecidos, o que provocou dificuldades e grita da indústria, que sofreu enormes problemas. Foi um setor que realmente enfrentou grande impacto, sendo obrigado a agir com rapidez e a mudar seus métodos e procedimentos. Os efeitos iniciais foram danosos e a situação da indústria como um todo ainda não se recuperou. Todavia, o resultado que agora se anuncia evidencia que as diretrizes, de modo básico, estavam certas. A indústria nacional teve que se adequar à nova situação, precisou investir em melhoramentos técnicos - notadamente no que tange à questão de máquinas, a abertura foi benéfica -, sendo também quase que obrigada a seguir normas para racionalizar o serviço e ganhar na qualidade.
Os efeitos positivos da redução nos preços do vestuário neste inverno devem se multiplicar, como acontecia no passado de modo inverso. Antes, as roupas faziam parte do amplo espectro econômico que alavancava a inflação. Agora, podem vir a ser fator positivo na estabilização da economia. Se os preços só se mantiverem no mesmo patamar de há um ano, isto já terá efeitos tremendos sobre a economia. A queda anunciada vai ajudar ainda mais.





