Editorial
Quando o governo brasileiro lançou o Real, as autoridades estabeleceram como lastro da nova moeda as reservas internacionais do País que eram, na ocasião, substanciais. Funcionou por um certo tempo mas, ultimamente, com a escalada da especulação internacional está se vendo a fuga de divisas a tal ponto que a situação nacional, hoje, é bastante precária. Segundo os especialistas, o nível atual das reservas está perigosamente baixo e se a revoada dos dólares continuar, os problemas monetários do Brasil obviamente vão se agravar. Esta realidade, temida há tempos, está, inclusive, prevista em uma célebre declaração do ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln. Há mais de 100 anos ele alertava que nenhuma nação poderá conseguir a prosperidade com base na poupança externa. O que garante a estabilidade, o que permite a um país progredir com firmeza, interna e externamente (sendo que o desenvolvimento externo é uma consequência do interno) é a poupança interna, é a produção, é seu potencial efetivo. E é esta uma das falhas do programa do governo brasileiro, que não estimulou a atividade interna de modo desejável.
A abertura comercial propiciada pelo programa de estabilização não levou em conta a reciprocidade. Abrimos o Brasil ao mundo e, com isto, nos tornamos um tipo de paraíso para as outras nações. O País parou de produzir superávits na sua balança comercial, o que vem ocorrendo há anos, sem que ninguém, pelo menos nas esferas governantes, atentasse para esta sangria contínua de divisas, sem retorno. Ora, o mercado mundial deveria ser uma via de duas mãos. Se o país importa mais, tem que aumentar o volume de exportações. No mínimo, precisa ter equilíbrio nestas contas. No caso brasileiro, o ideal ainda seria uma balança superavitária, o que não é querer muito diante do potencial do País.
Os que continuam a acenar com tempos ainda piores, como decorrência desta crise que parece interminável, continuam de costas para a solução natural a esta situação: o que o Brasil precisa é estimular a produção e entrar no mercado com mais coragem e vontade.
Na verdade, esta desvalorização do real, que é apontada como motivo para o caos que nos espera logo adiante, não é tão ruim quanto parece. Ela está trazendo benefícios para os produtores brasileiros que, inclusive, melhoram as condições de competitividade lá fora. E a reação argentina à crise brasileira é sintomática: enquanto nossos vizinhos e parceiros do Mercosul podiam nos afogar com sua produção, inclusive vendendo aqui quase a metade dos veículos que produzem, tudo era maravilhoso. Foi só o real cair e a concorrência brasileira se tornar complicada para que os amigos do outro lado do Prata começassem a exigir proteção de seu Governo.
Há uma afirmativa simples que diz que um negócio só é bom quando agrada a todas as partes envolvidas. Neste negócio que se fez a partir do Plano Real, o Brasil não teve muitas vantagens. Ganhou a Argentina, ganhou até o Paraguai que se tornou fornecedor informal de importados, pelas portas da fronteira, ganharam os Estados Unidos. Mas o Brasil ficou à deriva, amargando déficits e vendo o lastro de sua moeda se dissolvendo ao sabor dos especuladores e dos comerciantes espertos. Está na hora de o Brasil começar a se beneficiar deste mercado global, aumentando sua participação no bolo, produzindo e vendendo mais, restaurando os superávits e, assim, fortalecendo de fato o seu lastro em divisas fortes. O que é imprescindível que, em vez de uma postura fatalista diante da especulação, o Brasil se lance ao trabalho e à produção. E a crise irá embora.





