Editorial
Repentinamente, explodiu em todo o mundo uma notícia que parece trazer a ficção científica mais avançada para o cotidiano das pessoas. Cientistas escoceses, trabalhando em pesquisas patrocinadas pelo Governo britânico, criaram uma ovelha utilizando métodos totalmente diferentes dos habituais. Não se trata de inseminação artificial, nem mesmo de produção in vitro, mas da criação de um mamífero através do DNA (código genético individual), transformando em realidade aquilo que a ficção chamava de clonagem.
Dolly, nome dado à ovelha que surgiu, assim, de modo totalmente inconcebível até há pouco tempo, é um clone, um ser que não nasceu, que não foi produzido pelas vias normais ou mesmo pelos métodos artificiais já utilizados que, porém, não prescindem dos elementos animais de reprodução. Alvo da curiosidade mundial, a ovelha parece precisamente com qualquer outra da espécie e para os cientistas a descoberta do método capaz de reproduzir animais a partir do DNA, sem necessitar de meios de reprodução natural, constitui um avanço incomensurável. Já para o mundo, ao lado do espanto, há também o medo porque, se é possível reproduzir assim mamíferos, e sendo o ser humano do mesma espécie, parece muito possível que o próximo passo seja, precisamente, este.
Não por outro motivo, a reação mundial foi imensa. Em termos religiosos - e naturalmente a criação animal está intimamente ligada à idéia da divindidade - este avanço foi visto com enorme restrição. O Vaticano saiu à frente, reclamando medidas concretas dos governos no sentido de vedar completamente qualquer tipo de experimento que leve à clonagem humana. Governos, como os dos Estados Unidos e da França, já se lançaram também em campo, pedindo análises aprofundadas sobre a questão ética que envolve a clonagem.
Mas, ao lado desta avalanche de preocupação, os cientistas responsáveis pelo avanço se mostram tranquilos. Entendem que o que conseguiram abre portas fantásticas para resolver muitos dos mais sérios problemas do ser humano, entre os quais o da alimentação, da roupa e até das doenças, porque os clones assim reproduzidos tanto podem servir para oferecer comida como, também, para proporcionar órgãos de transplante. Isto sem contar as possibilidades de avanço no campo médico, ainda segundo o entendimento dos homens das ciências.
O que mais afeta, porém, a imaginação das pessoas é a questão da possibilidade da clonagem humana. Se se fez com uma ovelha, é possível fazê-lo com uma vaca, um cachorro, qualquer mamífero, inclusive o homem. Como Dolly oferece, porém, só o aspecto físico, uma vez que não é possível avaliar seu intelecto, sobram muitas dúvidas, sendo a maior talvez a relativa à possibilidade de a clonagem reproduzir um mamífero pensante. Isto sem falar na questão ainda mais complexa, a da alma. Isto é, eventuais clones humanos seriam seres perfeitos, completos, com inteligência, cópias perfeitas dos DNAs que lhes tenham dado origem, ou seriam cópias ocas, robôs, sabe-se lá o quê? E qual seria a situação civil de tais seres? Repentinamente, todo o universo dos ficcionistas, como Issac Asimov, parece muito próximo, bem real e, até por isto, bastante assustador.
É mais que certo que a pesquisa a respeito não vai parar, ainda que surjam muitas críticas, reclamações ou temores. Buscar novas alternativas sempre fez parte da própria essência do ser humano, mesmo quando alguns limites éticos parecem estar sendo invadidos. É quase impossível prever o que acontecerá mas a impressão é que já se está no terceiro milênio.





