Ao tentar unir a estabilidade econômica com a questão levantada por servidores que foram à Justiça reclamar um reajuste só dado aos militares, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu outra demonstração de inadequação em face da realidade. Dizer que a estabilização da economia não torna tão necessários os reajustes salariais é correto. Entretanto, no caso em questão, não se trata de uma reivindicação atual, mas de um reclamo antigo, ligado à Justiça e não a qualquer outro fator. Claro está que o fato de não ter havido reajuste para o funcionalismo no passado cria situação difícil também agora. Mas o que está em questão é a legalidade do reajuste concedido a uma parcela do funcionalismo e não a outra. E isso, conforme o entendimento emanado do Supremo Tribunal Federal, é ilegal.
Naturalmente, esta decisão do STF pode provocar dificuldades muito grandes para o Executivo na administração de suas contas. Entretanto, o Judiciário não age em função dos problemas dos outros poderes e sim conforme a lei. Ademais, talvez fosse até interessante que diante desta decisão o Executivo se colocasse de modo um pouco mais humilde, a fim de perceber que não é justo jogar sobre determinadas pessoas ou categorias o peso deste processo de estabilização. Ninguém contesta a importância do Plano Real, o povo está muito satisfeito com a inflação baixa, com a moeda forte, com preços que sobem pouco, que por vezes até baixam.
Entretanto, todo este processo tem um custo, o chamado sacrifício. Não ocorreu felizmente uma recessão violenta - como seria de prever em esforços destinados a conter a inflação -, mas houve (e em alguns casos continua a haver) problemas sérios. Segundo levantamento recentemente divulgado, mais de 700 mil empregos foram desativados desde o início do real. O mercado formal de trabalho (aquele de carteiras assinadas) diminuiu, enquanto aumentou o mercado informal. No campo do funcionalismo, tem havido também uma política de arrocho muito grande.
Sabe-se que para conter o déficit público, o governo precisa, entre outras coisas, da reforma administrativa. Enquanto ela não vem, não é aceitável que o funcionalismo seja penalizado com uma política salarial perversa. O Executivo precisa encontrar alternativas para diminuir o déficit e o tem feito, enquanto não consegue que o Congresso aprove as reformas estruturais. Mas é justo, pelo menos, que divida melhor os sacrifícios. E, principalmente, é necessário que o Executivo não perca de vista a necessidade de propiciar alternativas também para a iniciativa privada, para o trabalhador em geral a fim de enfrentar esta dura situação que se observa no mercado do trabalho.
O que se faz necessário, sem dúvida, é que o Executivo amplie sua visão e análise relativa à situação em geral para prosseguir com o projeto econômico de estabilização, principalmente porque é sabido que medidas muito objetivas tendentes a manter e se possível ampliar o nível de emprego precisam ser adotadas. É importante também reverter este quadro de crescimento do mercado informal, o que inclusive prejudica a própria Previdência. Tem faltado, porém, coragem de enfrentar a política de encargos, que onera demais os salários e torna quase natural a fuga para a informalidade a fim de fugir dos pesados encargos. No próprio front interno, o do funcionalismo, independente até da reforma é possível efetuar remanejamentos que possam cobrir áreas em falta e desonerar as que têm excesso. Só o que não é justo, nem certo, é manter uma postura equivocada, como se apenas o Poder Executivo fosse o detentor da verdade e da Justiça.

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