Editorial
Em 1990, o Iraque, governado pelo todo-poderoso Saddam Hussein, entendeu que poderia agir como lhe aprouvesse, mesmo em relações internacionais, e invadiu o Kuwait, alegando direitos históricos sobre o território do vizinho país. A reação mundial à invasão ainda é lembrada. Forças de uma coalizão atacaram os iraquianos, bombardearam Bagdá, forçaram a retirada dos invasores e restauraram a liberdade kuwaitiana. Saddam Hussein não foi derrubado do poder, mas ficou ilhado, tornou-se verdadeiro marginal no mundo, todo seu povo sofreu os efeitos da pirataria do governo e o mundo estabeleceu nova filosofia nas relações internacionais. A partir daí, ficou bem definido que não há mais espaço na vida humana para projetos expansionistas, como os que se viu no mundo, inclusive no final da década de 30. Na verdade, a 2ª Guerra Mundial foi uma reação ao expansionismo militar, mas também uma reação tardia, o que propiciou o fortalecimento do nazismo, obrigando a uma guerra de cinco anos e milhões de mortos.
Hoje, não há mais lugar para isto no mundo. Nem para aventuras do tipo Saddam, nem para ações como as que o governo de Israel insiste em adotar, como a recém-anunciada construção de moradias em Jerusalém oriental, área ocupada na guerra de 1967, mas que não pode ser considerada de propriedade daquele país. A situação ali ainda é mais complexa, não apenas por causa dos acordos firmados em Oslo, com aval das chamadas grandes nações, mas - e talvez principalmente - por causa mesmo da origem do Estado de Israel. Aquele país surgiu, como entidade legalmente reconhecida no cenário mundial, através de resolução das Nações Unidas, aprovada em 1948.
Foi a culminância de uma dura batalha que havia sido precedida pelo mais terrível holocausto que a Humanidade tinha presenciado. Nos anos do nazismo, seis milhões de judeus foram mortos na Europa ocupada pelos militares alemães. O mundo civilizado se horrorizou de tal modo que a ONU (organismo criado pouco antes do final da guerra para reunir as nações do planeta em um Parlamento capaz de manter a convivência humana), decidiu atender a um anseio militar dos judeus: propôs a partilha da Palestina, área que era reclamada nos últimos séculos por vários povos e que havia estado sob controle da chamada Liga das Nações, antecessora da ONU. A partilha determinava uma área para os judeus e outra para os palestinos.
Os judeus concordaram, os árabes de modo geral, não. Israel, para se manter, precisou lutar e muito. E nas lutas todas, muito território que não fazia parte do que tinha sido originalmente definido pela ONU, foi conquistado. Nos últimos anos, felizmente, surgiram manifestações de bom-senso e Israel começou a negociar com uma excelente idéia: terras por paz. Devolveu território conquistado ao Egito, fez o mesmo com a Jordânia e ultimamente começou a entregar aos palestinos terras que lhe pertenciam na antiga partilha da ONU.
A derrota eleitoral do partido que vinha realizando os acordos com os palestinos provocou grande abalo no processo. Entretanto, o novo governo de Israel, mesmo discordando do plano do seu antecessor, tem sido forçado a manter o programa. E não pode agir de forma diferente. Pode-se entender, sem dúvida, o trauma dos judeus em face do temor de perder a terra que conquistaram. Mas é fundamental observar que há também o direito dos outros ali, no caso, o dos palestinos.
Ir contra o processo é desconhecer a nova realidade mundial. O governo Netanyahu não pode agir irresponsavelmente, sob pena de se tornar, como o de Saddam Hussein, de Muammar Kadafi, um marginal no mundo. Isto não fica bem nem para a própria História do povo judeu.





