Editorial
O Brasil já despertou há algum tempo para o desperdício na lavoura. O senador José Eduardo de Andrade Vieira, quando ministro da Agricultura, já havia adotado posição relativa ao assunto, tentando estimular medidas capazes de conter estas perdas, que representam prejuízos não só materiais, mas também sociais. O lançamento em Londrina pelo atual ministro da Agricultura, Arlindo Porto, desta nova campanha contra o desperdício encontra, assim, terreno propício. Aliás, conforme o próprio ministro destacou, o Paraná é um dos Estados em que o índice de perdas na lavoura é dos mais baixos do País, embora ainda seja elevado. E no cômputo nacional, conforme revelou, a perda é de 6 milhões de toneladas, o equivalente a R$ 1 bilhão.
Evitar o desperdício, em qualquer oportunidade, é importante. Mas na fase atual da economia brasileira é ainda mais relevante. Com efeito, entre tantas outras mazelas e vícios, a inflação exacerbada, como a que o Brasil enfrentou antes da era Real, acabava por transformar o desperdício também em uma forma de vida. Afinal, se valia mais a pena pôr o dinheiro na ciranda financeira do que usá-lo em investimentos produtivos, o que quer que se gastasse para conter as perdas também seria perdido: melhor aplicar o dinheiro. Hoje, com economia estável (ou quase), com moeda forte, o ganho maior de quem produz, e não apenas no campo, vem exatamente destas aparentemente pequenas coisas, como os cuidados destinados a conter o desperdício.
Esta situação, inclusive na atual fase da vida econômica brasileira, não se aplica apenas à agricultura. Pois é certo que o vício inflacionário atingiu todas as áreas da vida nacional. Nos últimos anos, com a mudança de mentalidade que se tornou necessária dentro da nova economia, também se faz necessário mudar comportamentos a respeito de desperdícios em todos os setores. Pois os reais que se deixa de perder com medidas simples destinadas a evitar perdas, seja no campo, nos escritórios, nas indústrias, na rua e até em casa, são fortes e ajudam a melhorar até o nível de vida de cada um.
Reduzir as perdas no campo, assim como evitar desperdícios na cidade, não é difícil. Começa, naturalmente, com uma conscientização mais adequada de todos sobre a situação. O Ministério da Agricultura pretende orientar os produtores e também outros envolvidos no processo, de vez que o desperdício começa no campo e vai até o porto ou o balcão de venda ao consumidor. Este esforço na cidade também se faz necessário porque ao lado do interesse individual para evitar perdas há também o ganho nacional a ser considerado.
Economia estável supõe, sem qualquer dúvida, aproveitamento melhor e mais racional de tudo. O Brasil iniciou há pouco tempo a caminhada por uma época em que o dinheiro não perde o valor a cada semana, quando as coisas não sobem mais avassaladoramente, proporcionando assim a todos condições até para um planejamento melhor de vida. Há, porém, o outro lado desta moeda: o ganho, seja ele o do produtor rural, do empresário, ou o salário do trabalhador também não sobe mensalmente. Logo, é preciso mudar procedimentos. Aquilo que não se perde através do desperdício é ganho real e efetivo, seja na lavoura, seja na torneira de casa (e os dados sobre o desperdício de água são também assustadores). Com medidas simples visando racionalizar o uso ou evitar o desperdício, o Brasil terá dado outro passo importante na consolidação do processo de estabilização da economia.





