Não era um feriado prolongado, apenas um final de semana comum. Mas o registro policial revelou um total de 13 mortes e 4 dezenas de feridos nas estradas do Paraná. Sob qualquer aspecto que se observe esta situação, é um resultado inconcebível. No entanto, além do costumeiro destaque dado pelos órgãos de divulgação, nada mais se fará a respeito, persistindo a mesma insegurança a cada novo fim de semana. A impressão é a de que esta dolorosa esteira de sangue que cobre rodovias e artérias urbanas do país continua a ser vista com um fatalismo completamente deslocado.
Acidentes acontecem, naturalmente. Entretanto, o que vem ocorrendo no Brasil em termos de vida no trânsito, e não é de hoje, não pode ser visto como algo acidental. Há nisto uma série imensa de fatores, incluindo imprudência, negligência, abuso e falta de uma atitude mais concreta tanto por parte das autoridades como das próprias pessoas visando modificar esta situação. O que se faz necessário é começar mudando a forma de pensar sobre este problema, que já ultrapassa todos os limites. As perdas humanas que vêm se registrando com impressionante regularidade nas últimas décadas representam mais do que a dor e o luto dos familiares. São, na maior parte das vezes, vidas em plena fase de desenvolvimento, bruscamente interrompidas devido a circunstâncias que, em muitos casos, poderiam ter sido evitadas.
Alguma coisa tem sido feita, sem dúvida, para aumentar a segurança dos veículos, como também das ruas e estradas. Uma legislação mais dura vem sendo preparada, com penalidades fortes contra os que cometam deslizes no trânsito. A escalada dos acidentes, porém, a continuação das mortes e ferimentos a cada dia indica que ainda há muito a fazer para mudar, e com a maior rapidez, esta situação. O que não pode, mesmo, é continuar este quadro, que já beira o fastio. Acidentes já são tão comuns que nem comovem aos outros. Pior, não servem sequer para provocar em terceiros mais cuidado ao volante, em qualquer parte.
A tecnologia tem criado veículos cada vez mais velozes, potentes e sofisticados. Lamentavelmente, apesar dos esforços visando melhorar a segurança, o que inclui normas limitando a velocidade, exigências para habilitação dos condutores e equipamentos específicos, o descompasso entre a capacidade dos carros, ônibus, caminhões, motocicletas e outros e a ação de quem os dirige parece cada vez maior. Completando um quadro que parece ter sido criado para provocar mais tragédias, as estradas, mesmo quando adequadamente construídas, não oferecem condições de segurança, inclusive porque não há preocupação com sua conservação. Para muitos governos, conservar estradas é um atraso, até porque isto não figura nas estatísticas de realizações. Então, mais quilômetros são incorporados à rede asfáltica, também sem qualquer cuidado posterior, enquanto os motoristas vão aumentando a cada dia a estatística dantesca que as transforma em verdadeiros atalhos para a morte.
Uma sociedade que não se preocupa com seus próprios membros está correndo risco de soçobrar. O descaso com a vida humana, que fica patente não só nos abusos de quem dirige, mas na inércia dos que deveriam adotar medidas concretas capazes de modificar este quadro, é sintomático de uma era perigosa. Nenhuma civilização pode se dar ao luxo de perder vidas do modo como vem ocorrendo no Brasil, seja em acidentes (não tão acidentais), seja por outra forma de violência. É preciso que se realize uma verdadeira cruzada contra esta situação enquanto ainda é tempo.

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