As amplas implicações decorrentes da análise feita pelo livro que antecipa a queda do regime reinante na Arábia Saudita, divulgadas pelo comentarista Joelmir Beting, deveriam ser analisadas com o maior cuidado por todos. Segundo a publicação, ainda nesta década a casa reinante na Arábia Saudita deve cair, sendo o poder assumido pelos fundamentalistas islâmicos, como já ocorreu no Irã.
A queda de uma família reinante em um país do outro lado do mundo não seria problema algum para ninguém, além dos interessados, não fosse a Arábia Saudita a detentora de um terço das reservas petrolíferas do mundo. A previsão do autor do livro é a de que quando isto ocorrer, o mundo poderá enfrentar uma nova crise do petróleo de efeitos muito piores do que os sentidos nos anos 70, quando os produtores quadruplicaram os preços do produto.
Até agora, conforme revela Beting, apenas a comunidade financeira de Wall Street está preocupada com o problema. Todavia, é fora de dúvida que a questão deveria estar mexendo com empresários e governantes, principalmente dos países que continuam a depender do petróleo importado. Acontece que não faz parte da filosofia oficial na maioria dos países este tipo de antecipação. Os governos, especialmente, se mostram preocupados com questões imediatas, as que podem render votos e manutenção no poder, ao invés de perceber problemas que podem surgir em prazo maior. Com isto, perdem-se até oportunidades para prevenir e buscar soluções alternativas.
O Brasil sofreu tremendamente os efeitos do choque de petróleo nos anos 70. O País vivia uma época de enorme crescimento econômico, o chamado ‘milagre’. Como consequência da abrupta revolução nos preços dos combustíveis, obrigando a um dispêndio muito maior de divisas para a importação, acabou o milagre e começaram os duros anos que desembocaram na recessão dos anos 80. Entretanto, o problema produziu alguns bons resultados. O Brasil enfrentou o desafio e encontrou algumas saídas excepcionais para o petróleo importado. Foi quando começou a se desenvolver o programa do álcool e se deu especial ênfase ao aproveitamento da energia hidrelétrica, ao tempo em que novos investimentos na prospecção do petróleo nacional propiciaram a descoberta de importantes jazidas.
O choque, porém, acabou absorvido e, outra vez, o mundo se descuidou, incluindo aí o Brasil. O programa do álcool, que poderia ter avançado muito mais, está praticamente abandonado. As pesquisas no sentido do aproveitamento da energia solar - no Brasil uma fonte praticamente inesgotável -, também foram descuradas, o mesmo ocorrendo com a energia eólica. A falta de investimentos na construção de novas hidrelétricas já criou a ameaça de blecaute, notadamente nas regiões mais desenvolvidas. Até mesmo a prospecção de petróleo não tem sido feita com a necessária disposição, faltando igualmente investimentos para o setor. Uma vez mais, o problema energético é deixado de lado como se não existisse, o que pode provocar duras consequências em futuro muito próximo.
Este alerta sobre a situação na Arábia Saudita deveria servir para que o Brasil voltasse a se dedicar ao assunto, com a devida atenção. Ainda há tempo para dar continuidade ao trabalho em todos os setores relativos à energia. Esperar que as coisas voltem a se complicar é não só falta de inteligência, mas até impatriotismo. No momento em que a economia nacional se estabiliza, é hora de se cuidar desta infra-estrutura, pensando-se não só na auto-suficiência energética, mas na possibilidade de transformar o País em exportador de energia.

mockup