Editorial- Energia e agricultura
Quando eclodiu a primeira e, sem dúvida, mais dura crise do petróleo, há 30 anos, o impacto sobre os países dependentes de importação do combustível foi tremendo. No Brasil, que pouca importância tinha dado à pesquisa para explorar seu próprio subsolo em busca do chamado ouro negro, a situação foi quase caótica. Todo o esforço que vinha sendo feito no sentido de superar as dificuldades que o país enfrentava, e que vinham dando alguns frutos projetando até o milagre econômico dos anos 70 , foi praticamente perdido, desembocando a tragédia na recessão dos anos 80, que até agora não foi adequadamente superada.
No auge da crise, o Brasil se lançou a um trabalho verdadeiramente gigantesco destinado a mudar a situação de dependência, uma vez que havia ficado claro à época que sem energia o País corria o risco de soçobrar. Foi então que, ao lado de programas de racionalização de uso, que efetivamente reduziram o consumo dos derivados de petróleo, surgiram projetos para exploração de outras formas de energia, entre as quais o melhor aproveitamento do potencial hidrelétrico e a adequação do chamado combustível renovável, o álcool, para garantir uma mudança real naquele quadro.
Por algum tempo, o esforço foi efetivo e provocou resultados. A produção de energia com base nas hidrelétricas alcançou significativo progresso. E a utilização do álcool, como substituto da gasolina, se mostrou, após um trabalho muito bom dos técnicos brasileiros, não só factível mas até vantajosa. Paralelamente, montou-se um renovado esquema para prospecção de petróleo, notadamente no mar, com resultados excelentes, tanto que se comenta até sobre a possibilidade de o Brasil conseguir, em alguns anos, a auto-suficiência em relação àquele combustível.
Todavia, e criminosamente, na medida em que a crise era superada e em que a própria economia se adequava à nova realidade dos preços do petróleo, os governantes brasileiros foram abandonando os esforços pela obtenção de energia alternativa. O programa do álcool quase foi abandonado. Pior é que a idéia que se tinha sobre o grande potencial da energia hidrelétrica também se mostra um equívoco. Com efeito, segundo previsão do diretor de gás e energia da Petrobras, Delcídio do Amaral Gomes, o Brasil só será auto-suficiente em energia elétrica dentro de quatro anos, em 2004, com a adição de 11 mil megawats (MW) aos 65 mil MW já produzidos no País. Atualmente, o Brasil importa energia do Paraguai (5.400 MW) e da Argentina (1 mil MW). As compras da Argentina devem-se principalmente à seca que prejudicou a produção das hidrelétricas, responsáveis por mais de 90% da geração brasileira.
Para complicar o quadro, as recentes catástrofes climáticas produziram uma quebra na produção de cana, o que vai refletir sobre o álcool. O governo, que continua dando a impressão de que esta alternativa, tão eficaz, não interessa, está preocupado agora com algumas consequências da quebra, inclusive pensando em reduzir a mistura álcool-gasolina para diminuir a necessidade do combustível renovável. Deveria, ao contrário, oferecer apoio aos produtores para que possam continuar a trabalhar. Infelizmente, porém, continua difícil, apesar de muitos discursos, ver o governo preocupado de fato com o drama e a tragédia do campo. É importante insistir em que a situação atual afeta não só a cana mas boa parte da produção agrícola, prejudicada no Sul pela seca e destruída pelas geadas. Com esta falta de visão ou de vontade, ou de ambos, perde-se mais uma ocasião para dar ao homem do campo o apoio que merece e que realmente está necessitando.





