Editorial - Voto sem adjetivos
Houve um tempo, durante a ditadura, em que o voto era acompanhado de adjetivos. Lembrando agora, é uma época curiosa. O movimento totalitário, que surgiu sob a alegação de salvar a democracia, que estaria ameaçada pelas tentativas golpistas de João Goulart, tinha uma espécie de obrigação de dar, pelo menos, a idéia de que pretendia manter a liberdade. Assim, no primeiro momento até manteve o Congresso aberto, deixou que os partidos funcionassem, permitiu as eleições de 65 (um ano após o golpe), embora sem a escolha do presidente. Como, porém, as coisas não andavam como os chefes totalitários queriam, então surgiram as modificações. Veio o bipartidarismo absurdo, que visava colocar quem era a favor do regime de um lado e quem era contra do outro. E com a agravante de que os que estavam na oposição eram inimigos, quase subversivos. Depois, tirou-se ao eleitor o direito de escolher governadores, foram criadas sublegendas, inventou-se até o voto vinculado: o eleitor tinha que votar em todos os candidatos do mesmo partido, sob pena de nulidade.
Para contrapor a isto, surgiam alternativas. Inventou-se o voto camarão, que era o jeito de não votar no cabeça de chapa e escolher os outros da oposição. Também se criou o voto útil, através do qual se apelava ao eleitor não para votar em quem considerasse melhor, mas em alguém que pudesse fazer frente ao rolo compressor da ditadura. Naquele tempo, sem dúvida, as eleições eram uma guerra, o termo batalha eleitoral se colocava muito bem. E, como sabemos todos, quem acabou ganhando esta luta foi o povo brasileiro, que conseguiu restaurar a democracia. Vale, aliás, lembrar que também a democracia e a liberdade receberam muitos adjetivos durante o período totalitário. Tínhamos a democracia possível, a liberdade concedida.
Atualmente o que o Brasil tem é democracia real e liberdade autêntica. E o voto também prescindiu da necessidade de adjetivos. O eleitor pode escolher quem quiser, formar as chapas conforme sua vontade, votar no candidato a presidente de uma legenda, escolher o de outro partido para governador, sufragar deputados federal e estadual de agremiações até opostas. A liberdade é tanta que até na urna eletrônica tem o botão para o voto em branco e também existe o jeito de anular o voto. O eleitor pode fazer o que quiser, livremente, sem nenhum tipo de pressão. Seu único e efetivo compromisso é com sua consciência.
O voto, assim como a democracia e a liberdade, não precisa de adjetivos. Vale por si, representa a força viva capaz de mudar a História, definir o futuro, redesenhar o destino de um povo. Isto já foi feito antes e continua a ser realizado a cada novo pleito. Hoje, quando os brasileiros são chamados a escolher presidente, governadores, um terço do Senado, novos deputados federais e estaduais, o futuro está nas mãos dos 106 milhões de eleitores em condições de votar. É um contingente poderoso, é a voz do dono do poder que se manifesta de modo pleno e que não necessita de qualquer definição ou interpretação.
Fundamental é insistir na observação sobre o fato de que o simples voto (para muitos ainda uma cédula, para outros tantos apenas o apertar de botão na urna eletrônica), constitui o elemento básico para a definição da vida neste gigante que só agora começa a despertar e a perceber sua enorme potencialidade. O chamado país do futuro parece estar notando que o futuro já chegou e, o que ainda é mais importante, que o principal agente desta transformação é seu próprio povo. Hoje, é pelo voto tranquilo, consciente, livre e franco que este povo, chamado eleitor, vai definir o que quer para si e para os seus e como é que pretende enfrentar o futuro tão desafiante.





