O fim da Semana Santa não leva à esperança de que haja uma retomada da atividade legislativa, notadamente no Congresso, com vistas à apreciação das importantes matérias que tramitam nas duas Casas Legislativas federais, especialmente as reformas estruturais. É ano eleitoral e os parlamentares estão mais preocupados com as respectivas campanhas, o que poderia parecer incoerente se não fosse um hábito brasileiro há muito arraigado.
Ao mesmo tempo, um ministro de Estado recém-empossado tem a infelicidade, ou displante, de informar que não há crise de desemprego no País. Quando ministros se comportam assim, é indispensável que a população tenha ao seu lado um Congresso atuante e influente para repor a ordem das coisas. Sim, temos crise de desemprego e precisamos agir rapidamente e eficientemente para aumentar as vagas de trabalho na economia.
Mas, os parlamentares brasileiros dão a impressão de que se preocupam mais com eleição do que com a votação de projetos de lei, muitos deles malfeitos e que deveriam ser melhorados, e quase todos importantes para definir os destinos da Nação. Nossos parlamentares não deveriam temer a distância de Brasília, pois em poucas horas de vôo podem estar em suas cidades de origem. Os fins de semana são ideais para isso, ainda mais porque ganharam as sextas e as segundas-feiras. Quatro dias por semana, todas as semanas, não seriam suficientes para visitar as ‘‘bases’’ eleitorais?
Salvo exceções, os políticos brasileiros não contribuem para o aprimoramento da democracia. Negociatas em penca, divulgadas com o devido destaque pelos meios de comunicação, plenários vazios tanto no Congresso quanto nas Assembléias legislativas, corrupção denunciada, algumas vezes provada e raramente punida, todo um quadro altamente desabonador faz com que o eleitor se torne cada vez mais descrente do País e da democracia.
A resultante deste quadro aparece nitidamente nos últimos dez anos, quando as sucessivas eleições mostraram índices crescentes de votos nulos e em branco. E a abstenção só não é um descalabro porque no Brasil o voto é obrigatório.
No entanto, ainda assim não se pode esquecer que a democracia, se não é perfeita, é melhor do que qualquer outro sistema político. E votar nulo ou em branco é a melhor maneira de torná-la ainda mais imperfeita e, por oposição, de avalizar sistemas políticos muito piores. Basta olhar para os regimes militares da África e da Ásia ou para as teocracias do Oriente Médio. Anos atrás, bastava olhar para mais perto, para as ditaduras latino-americanas, que felizmente acabaram.
Não é votando nulo ou em branco que se vai protestar contra os erros de nossos governos, mas votando conscientemente nos melhores candidatos e elegendo Câmaras, Assembléias e Congressos capazes de governar junto com o Executivo em favor da sociedade e do bem comum.
A propósito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acaba de lançar campanha para incentivar o voto dos jovens. Pesquisa feita por empresa de consultoria de São Paulo com jovens entre 15 e 20 anos mostra um quadro preocupante: a maioria aceita a corrupção e tolera os políticos que roubam. Aí está uma situação que deve merecer o maior cuidado. Se os jovens aceitam este tipo de subversão democrática, é porque foram criados numa cultura permissiva que não pode ser aceita.
As mudanças que vêm ocorrendo no País, com a maior conscientização dos direitos e deveres da cidadania, devem levar a outro tipo de atitude diante dos poderes e valores instituídos. Esta revolução de mentalidade, que fez o povo se tornar o principal agente na luta pela estabilização da moeda, precisa se refletir na questão eleitoral. E nas urnas, especialmente as deste ano, quando se renovarão a Câmara Federal, um terço do Senado e as Assembléias Legislativas, além dos cargos de governo nos Estados e na União. Com a grande participação dos jovens, o voto de outubro poderia marcar a grande virada da democracia no Brasil.

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