Editorial - Vitória na derrota
Vitória na derrota
Normalmente, a História registra grandes vitórias e as nações celebram os vultos que as conquistaram. Entretanto, há determinados momentos em que certas derrotas acabam se convertendo em motivo de rememoração e homenagem, marcando fatos que representam etapas de elevação dos povos. Os paulistas comemoram até hoje a Revolução Constitucionalista de 1932, um movimento duramente reprimido pela ditadura da época e que foi uma derrota. Só para rememorar, os paulistas foram às armas, em 32, exigindo da ditadura Vargas, que havia se implantado em 1930, o cumprimento da promessa de promulgar uma Constituição. A Revolução Constitucionalista foi um épico para os paulistas, uma derrota militar, mas uma vitória do senso da cidadania, naquela ocasião ainda muito restrito. E hoje, os paulistas exaltam aqueles que lutaram contra a ditadura e que, derrotados pelas armas, acabaram vencedores porque a ditadura acabou se dobrando ao reclamo daquela Revolução, embora não houvesse de fato restaurado a democracia. De qualquer modo, 13 anos depois, a ditadura caiu e ainda hoje os paulistas em particular e todos quantos, no Brasil, percebem a grandeza dos ideais daquela luta, homenageiam os heróis de 32. Derrotados pelas armas, venceram e são atualmente exemplo da luta brasileira pela liberdade.
Há 10 anos, em junho de 1989, o mundo acompanhou, com emoção crescente, outra luta inglória: as manifestações pró-democracia realizadas na China e que culminaram com o chamado Massacre da Praça da Paz Celestial, mostrado pela TV para todo o planeta. As imagens dos jovens enfrentando tanques, daquele rapaz que se colocou na frente das máquinas de guerra, representaram por si a singularidade do fato e a verdadeira impossibilidade de vitória. Os tanques e canhões venceram, os jovens foram presos, alguns fugiram, muitos desapareceram. Segundo informações não oficiais, 2.600 pessoas morreram e cerca de 7 mil ficaram feridas durante as manifestações da Praça de Tiananmen. Documento citado pela agência China Times, indica que 11 estudantes morreram em consequência do ataque dos tanques. A cifra de mortos e feridos foi divulgada pela Cruz Vermelha chinesa e, segundo um documento do Departamento de Estado norte-americano, não é uma estimativa exagerada. As autoridades chineses jamais divulgaram o balanço oficial sobre a tragédia.
Ninguém discute sobre quem venceu a batalha da Praça da Paz Celestial. Foi o Governo chinês, repressivo, com tanques e canhões, com a opressão de um Estado totalitário. A China continua reprimindo seu povo. Dois chineses foram condenados a quatro e cinco anos de prisão, respectivamente, e importantes multas por terem impresso publicações políticas ilegais. As condenações, constituem uma advertência e acontecem precisamente quanto as autoridades chinesas reforçaram sua repressão da dissidência. A polícia chinesa interrompeu, na semana passada, uma noitada organizada na casa de um dissidente para relembrar o massacre e deteve três opositores democratas.
Todavia, é fora de dúvida que aqueles que o mundo louva e homenageia, hoje, dez anos depois, são os que perderam, as vítimas, os heróis, conhecidos ou anônimos. Pode tardar o dia em que sua coragem e bravura venham a ser comemoradas internamente no seu país, mas é certo que sua luta não foi uma derrota, seu sacrifício representou a vitória maior da percepção do homem em busca da afirmação de sua dignidade ante o desafio dos tiranos em todos os tempos. Trata-se de derrotas que, inegavelmente, constituem a vitória do espírito humano.





