O Senado dos Estados Unidos absolveu ontem, em votação que sequer chegou a provocar temores aos partidários do chefe do Executivo, o presidente Bill Clinton das duas acusações que poderiam provocar seu impeachment. O resultado final das votações acabou surpreendendo porque os republicanos, que na verdade eram os principais interessados na questão (afinal, Clinton é democrata), não conseguiram nem demonstrar unidade na votação. Com os 55 votos de que dispunham - são maioria numa Casa de 100 membros -, não poderiam esperar derrubar o presidente dos Estados Unidos uma vez que é requerido para o impeachment o quórum qualificado de dois terços, 67 votos. Para ganhar, precisavam votar integralmente contra Clinton e contar ainda com a defecção de doze senadores democratas. Mas o que aconteceu foi o contrário. Numa das questões - foram dois os tópicos pelos quais Clinton foi julgado -, o presidente foi considerado inocente por 55 dos membros do Senado; na outra, o placar ficou igual, em 50 votos. Nos dois casos, senadores republicanos acabaram votando contra o partido, o que é permissível de vez que não se trata de assunto fechado, devendo cada parlamentar decidir conforme sua consciência, mas evidencia uma divisão partidária que, neste momento, é bastante ponderável em relação ao futuro.
A absolvição de Clinton era esperada e desejada pela maioria da população. Na verdade, desde que o processo contra o presidente foi retomado, as pesquisas populares indicavam que a maioria era contra qualquer sanção contra ele. Militava a seu favor o fato de que os Estados Unidos vivem um momento bastante favorável em termos econômicos. O desemprego é baixo, Clinton anunciou recentemente um expressivo superávit orçamentário, há um clima de euforia que há tempos não se via. Diante disto, para o cidadão comum a idéia de decretar o impeachment do presidente por uma questão não política - o caso envolvendo as relações entre Clinton e a ex-estagiária Monica Lewinsky -, parecia até abusivo. Pior, muitos consideravam que o que movia os parlamentares republicanos, primeiro na Câmara dos Representantes depois no Senado, era a intenção puramente política de derrubar um presidente democrata. O mais interessante em tudo é perceber como faltou à liderança republicana até mesmo a percepção relativa à reação popular diante do caso. Em novembro, quando o processo contra Clinton estava se encaminhando para etapas decisivas, as eleições revelaram uma tendência que não foi percebida pelos republicanos. Os democratas não chegaram a reverter a desvantagem que tinham no Congresso, mas conquistaram mais cadeiras tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado. Já então, diante dos números, era clara a real impossibilidade de os republicanos conseguirem derrubar o presidente. Foi aí que falharam, pela primeira vez. Mesmo diante dos resultados eleitorais e das pesquisas que foram sendo sucessivamente realizadas, insistiram em manter um processo que só serviu para desgastar a imagem dos políticos e, em certo sentido, deixar o presidente em situação desconfortável, até este final previsível.
A votação pelo Senado dos Estados Unidos encerra um episódio que poderia até ter sido evitado. Clinton sai fortalecido em certo sentido, podendo dedicar-se de modo mais pleno à sua atividade. Seu partido, o democrata, igualmente deve ganhar pontos face ao que ocorreu agora no Senado. Foi impressionante observar a unidade partidária: todos os 45 senadores democratas votaram pela inocência do presidente. O partido como um todo deve ter condições, inclusive, para tentar recuperar, nas próximas eleições, a maioria que perdeu para os republicanos no Congresso. E o presidente Bill Clinton já deixou clara a intenção de se aplicar a fundo nas próximas campanhas eleitorais para garantir mais cadeiras ao seu partido nas duas casas do Legislativo Federal.
O que continua incerta, porém, é a consequência plena dos fatos sobre a vida e o futuro do presidente. Clinton está livre do processo, deve poder concluir tranquilamente seu segundo mandato. Resta esperar para ver o que acontece depois. Inclusive no que diz respeito à própria sucessão presidencial. Ele não pode se candidatar outra vez e vai agora jogar seu peso e prestígio para eleger o candidato de seu partido, possivelmente seu atual vice, Al Gore. E aí entra em cena outra incógnita: até agora, os republicanos apareciam com muitas possibilidades de derrubar os democratas no próximo pleito presidencial, com dois bons candidatos, o governador Bush, da Califórnia, filho do ex-presidente George Bush, e Elizabeth Dole, esposa do ex-senador Robert Dole. Ambos, segundo pesquisas de opinião, apresentavam boas condições de derrotar o virtual candidato dos democratas no pleito presidencial do ano 2000. O que aconteceu ontem no Senado pode prejudicar as pretensões dos republicanos também neste particular, garantindo aos democratas mais quatro anos, pelo menos, no comando da Casa Branca.

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