A informação de que o índice de inflação acumulada nos últimos quatro anos - tempo de vida do real - atingiu 71% permite, sem dúvida, uma série de leituras e conclusões. A primeira, naturalmente, deve partir do descalabro econômico anterior ao Plano Real, quando o Brasil enfrentava uma taxa inflacionária superior a 1% ao dia, algo acima de 30% ao mês, uma verdadeira catástrofe. Era um quadro que só não provocou o caos por causa da indexação igualmente absurda e do chamado ‘modo de vida brasileiro’, o jeitinho - em contraposição ao famoso ‘american way of life’ -, que acabou sendo adotado em todos os níveis, inclusive o oficial.
Sob tal ótica, o índice de 71% em quatro anos é, sem dúvida, fantasticamente positivo, representando por si só um atestado de sucesso do plano de estabilização da economia lançado pelo governo federal. Há também uma outra leitura, menos agradável: 71% de inflação no período em questão ainda constitui um fardo pesado, um fator negativo diante de um processo econômico que busca a estabilidade. Há a considerar, porém, que este elevado índice tem base nos efeitos iniciais do projeto econômico. O plano de estabilização, recorda-se, não adotou congelamentos, pressões, medidas de força. E embora a desindexação inicial tenha servido para reduzir em muito as pressões, é certo que nos primeiros tempos houve índices altos (não em comparação com o passado, mas dentro de um projeto de estabilidade). Era algo previsível e até natural e a projeção sempre foi a de que, ao longo do tempo, a inflação iria se reduzir até chegar a um patamar considerado civilizado.
E isto de fato vem acontecendo. A cada ano, os índices são menores. A previsão para este ano é de uma taxa anual que não deve passar de 3%. Na continuidade desta política, é até possível sonhar com índices mensais negativos de inflação e com um total anual perto de zero. Este é o objetivo natural, o caminho necessário e o desafio maior, ainda mais porque se percebe, diante do total dos últimos quatro anos, que há ainda um grande problema a enfrentar.
Ademais, não se pode deixar de perceber que todos os segmentos sociais, de um modo ou de outro, tiveram vantagens e ganhos reais com a contenção da inflação. A eventual perda de alguns outros setores, que não tiveram reposição em quatro anos da inflação acumulada, também é possível. A equação chega a ser simples: na medida mesmo em que a inflação se mantenha nos níveis atuais ou, como se pode prever, caia ainda mais, os ganhos do trabalho e da produção serão naturais. E com um importante adendo: a realidade econômica do País indica que isto pode ocorrer sem o risco de recessão. Basta mencionar notícia divulgada ontem pela imprensa, acenando com a possibilidade de redução nos preços dos combustíveis devido à desregulamentação do mercado do petróleo.
O ministro de Minas e Energia, Raimundo Brito, desmentiu parte da notícia, quando afirmou que os estudos para a reestruturação de preços do petróleo e derivados estão em fase final e ainda não há uma decisão sobre a redução ‘‘deste ou daquele produto’’. Mas garantiu que ‘‘há perspectiva de redução dos preços no âmbito da nova regulamentação’’. E por aí passa uma nova etapa no processo. Os combustíveis provocam efeito cascata. Se o preço pode cair, isto traz um dado novo e importante a sinalizar para novas vitórias que, a médio prazo, podem resultar em queda mais acentuada ainda nos índices acumulados da inflação desde que o Brasil entrou fase do Real.

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