Editorial - Vitória amarga
Não fossem as legendas, nas fotos jornalísticas, ou as explicações, nas cenas mostradas pela TV, as ocorrências registradas pela imprensa na convenção de domingo do PMDB poderiam ser confundidas com o quebra-quebra ocorrido há alguns meses no Rio de janeiro, durante competição de luta marcial. Vale lembrar que por causa daquela briga, a competição que se realizou foi proibida pelas autoridades cariocas. Já o que houve na convenção do PMDB não terá outras consequências, a não ser o fato de deixar evidente uma total falta de respeito pela democracia, que é a grande perdedora em atos como esse, além do próprio partido.
Para tornar as coisas ainda mais complicadas, a decisão da convenção não resolveu os problemas do PMDB. A definição dos convencionais pelo apoio à candidatura do presidente Fernando Henrique Cardoso abre um corte profundo nos tecidos e órgãos internos de um corpo doente, em crise ideológica e de identidade. Ser ou não ser oposição, ser ou não ser situação, eis a questão. A convenção optou por ser situação, mas 45% do partido queria ser oposição. Agora, é preciso que a parte perdedora resolva o que vai fazer, mas o clima que se criou é de confronto e não favorece uma saída serena.
Na lógica política, era até natural que o partido optasse pelo apoio à candidatura do presidente, pois o partido faz parte do Governo e lhe dá apoio no Congresso. A violenta reação dos que discordam dessa lógica mostra bem o tamanho das divergências dentro do partido. Mas a divergência não é o problema. Ela também é natural numa democracia. O confronto físico dos oponentes é que espanta. Salta aos olhos que aqueles ali não podem ser membros de um mesmo partido.
O discurso das lideranças após a conturbada convenção não pacificou as coisas. Teoricamente, a convenção é soberana, sua decisão deveria fazer cessar as dissenções e todos se uniriam para a nova batalha. Do jeito que as coisas ficaram, isto virou um sonho. A decisão serviu para acirrar ainda mais os ânimos. A reunificação da legenda parece impossível.
Diante disto, o resultado para o presidente Fernando Henrique Cardoso tem duas leituras. É ótimo por um lado, mas péssimo por outro, porque em troca do apoio do PMDB ganhou um aliado reduzido a sua própria metade. Se isto lhe garante virtualmente a reeleição, ameaça seriamente sua base parlamentar. Basta que os dissidentes do PMDB decidam migrar para os partidos de oposição - não agora, porque perderiam o direito de se candidatar às eleições de outubro, mas depois. Os lances já começaram: o PT já anunciou que vai atrás deles para aliciá-los. E se, para evitar isto, o Governo abrir a caixa de favores aos descontentes, terá que se ver com a opinião pública.
O Governo queria tanto a vitória na convenção que ficou com um aliado partido ao meio. Um PMDB tão fraco assim é problema para o Governo antes mesmo da reeleição, pois ainda há votações importantes por acontecer no Congresso. E depois da reeleição, também. E se lembrarmos que a reforma constitucional mais importante - a tributária - ainda está toda por fazer, é fácil concluir que a cisão do PMDB não é boa também para o País.





