O assassinato de um trabalhador por um policial militar na noite de domingo, em Curitiba, não pode ser colocado como ‘simples acidente de trabalho’, como transparece das informações oficiais e até da decisão do comandante do 13º BPM, que resolveu deixar livres tanto o autor do disparo quanto o cabo que chefiava a operação, até a conclusão do inquérito. O que se teve ali foi um crime indesculpável e que apenas reflete, lamentavelmente, não só o despreparo de parte da polícia, mas a falta de respeito em relação à vida alheia. Vidas que a polícia deveria proteger.
A alegação de que o policial atirou porque ‘pensou’ que o trabalhador ia sacar uma arma, quando pôs a mão no bolso, não tem nada a ver com a ‘legítima defesa putativa’, tese pela qual se minimiza o ato criminoso quando um gesto da vítima dá ao autor a idéia de que é iminente uma agressão. Ora, a vítima e seu filho estavam sob a mira dos revólveres dos dois policiais que os abordaram e os policiais pediram que mostrassem os documentos. A alegação, portanto, é absurda.
Não há consolo em saber que muitos policiais militares estão matando cada vez mais gente em outros Estados. Pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER) e pela Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa do Estado do Rio (Alerj), nos últimos dois anos, mostra que dobrou o número de mortes provocadas por policiais no Estado do Rio. Mas isto, em vez de melhorar, só piora a imagem da polícia junto à população em geral. Lugar de bandido não é na cova, mas na cadeia. Logicamente, uma cadeia da qual não fuja nem seja uma escola de aperfeiçoamento no crime. O Poder Judiciário tem responsabilidade nisto e as polícias também. Quem não tem é a população, que só quer ver atendido seu direito à proteção, civilizadamente e competentemente.
Em outras palavras, não se pode sair por aí fardado e armado pensando que qualquer pessoa - isto é, a população inteira - é suspeita e qualquer movimento em falso deve ser respondido a tiro. Causa assombro que esta seja, pelo modo como agiu após o fato, a idéia que norteia o comando do 13º BPM, que resolveu tratar o caso como um simples acidente.
Vale lembrar que há poucos meses eclodiram movimentos de protesto de policiais militares e civis em vários pontos do País, e a causa que lhes deu origem - não exatamente as manifestações - teve a simpatia da população. De fato, não se pode ter segurança sem uma polícia com salário digno e bem preparada. Pois bem, os salários foram melhorados, mas os crimes cometidos por membros dos organismos de segurança continuam e esta é uma condição que a sociedade brasileira não pode aceitar.
A polícia não existe para matar gente. Tem é que oferecer segurança à população. Quando isto não acontece, existe uma subversão da ordem social que coloca em perigo a vida em sociedade. Se a presença policial pode ser o prólogo do crime, então o cidadão comum estaria, verdadeiramente, à mercê de uma situação inaceitável. Aceitar o assassinato do trabalhador em Curitiba, assim como os crimes que vêm sendo cometidos por maus policiais, é justificar o impossível e criar uma situação de terror para a população.
A verdade é que ainda não houve medidas concretas para mudar esta realidade. Infelizmente, como quase sempre acontece, foi só acabar a sequência de protestos e manifestações dos policiais militares que a questão da reforma de nosso sistema de segurança foi devidamente relegado ao esquecimento. Quantas mortes, afinal, precisarão acontecer, quantos trabalhadores terão de ser vítimas do despreparo de um policial ou de sua má-fé - como em Diadema - para que se tomem as medidas que a população tem o direito de exigir?

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