A redução do nível de empregos no setor de serviços e o aumento do desemprego formal em São Paulo, conforme o mais recente levantamento do Dieese - e que, segundo se antecipa, será confirmado pelos números do IBGE -, indicam claramente a necessidade de uma guinada na condução do assunto pelas autoridades. Até hoje, o setor de serviços compensava, em parte, o desemprego nos demais setores da economia. O fim desse colchão significa que o desempregado não tem mais alternativa e o governo não tem mais o argumento de que o desemprego é meramente setorial.
Depois que o índice do IBGE subiu fortemente, em janeiro deste ano, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinalou que o Brasil vai enfrentar este problema por muitos anos - disse que 15 -, por conta da complexa situação nacional e mundial. Mas, apesar desta conclusão, o presidente anunciava que seu governo faria um esforço concentrado para encontrar alternativas que garantissem aos brasileiros um destino menos azarento até 2013...
A preocupação presidencial logo se perdeu nos meandros de um governo sem criatividade para corrigir as derrapagens causadas pela súbita freada da inflação. Não estavam previstas e, pelo jeito, ficarão sem resposta se os eleitores não exigirem do presidente, na campanha eleitoral, uma postura sensível e efetiva diante dos problemas sociais.
Há falta de emprego em todo o Brasil, e não só em São Paulo. Por outro lado, há mais desemprego em São Paulo do que em todo o Brasil. Mas nem uma coisa nem outra servem de consolo. Primeiro, porque São Paulo produz mais de 30% do PIB nacional e tudo o que acontece na economia paulista atinge, para melhor ou para pior, todo o País. Segundo, porque o modelo econômico brasileiro não faz favor algum aos micro, pequenos e médios, mas somente aos grandes negócios. Por um desvio psico-histórico das nossas elites, só os grandes interessam. E na hora em que todos apanham, os que mais sofrem são os menores. O Brasil do norte, do centro e do extremo sul não consegue segurar o Brasil do sudeste.
Se os micro, pequenos e médios negócios fossem tratados com mais cuidado, o PIB paulista poderia ser muito maior e, nos maus tempos, poderia ser compensado pelo PIB nordestino, sulino etc. Um exemplo dessa supervalorização do grande são as concessões que diversos governos estaduais estão fazendo para atrair grandes indústrias. O que estão fazendo para manter as pequenas e médias empresas que já possuem e respondem pela maior fatia da riqueza produzida?
O esforço de industrialização que se faz no Paraná não foge à regra. Ele é necessário, sem dúvida, porém pouco ou nada se faz pelo negócio de quem não é grande mas pode, com muito menos investimento que o grande, gerar mais empregos do que ele e mais produto. Se os Estados não abrirem os olhos para isso, teremos muitas grandes indústrias por toda parte e um grande proletariado mal pago - as empresas vêm atraídas por baixos salários - e desestimulado.
É preciso mudar o enfoque. Está faltando ao Governo federal, que é o responsável pelo conjunto, uma visão abrangente e de longo prazo da situação do País. Não para fazer prognósticos sombrios, mas para nos conduzirmos melhor num meio adverso. Nesta federação ainda inadequadamente estruturada, o papel da União é fundamental para o desenvolvimento de políticas que levem em conta a necessidade de estimular o crescimento harmônico de todo o País e de todos os setores da economia, com especial atenção para o apoio as micro, pequenas e médias empresas.
A falta dessa visão produz, além dos efeitos econômicos e sociais conhecidos, um ainda mais grave: a quebra da confiança no futuro. Um povo sem esperança migra sem parar atrás de oportunidades até que desiste de tudo e volta derrotado para suas origens. Já se observa esta volta a partir de São Paulo. Não porque o Norte e o Nordeste estejam melhores, mas porque o sul-maravilha ficou ruim. Outros, se podem, vão embora do País e isso vem acontecendo com intensidade cada vez maior.
Estimular investimentos produtivos é uma necessidade. Mas perceber que o leque desses estímulos deve ser ampliado, criando-se condições para melhoria de vida em outras áreas do País e em todos os setores da economia, do pequeno ao grande, também é de suma necessidade. É vital para começarmos a crescer harmonicamente, em benefício de todos.

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