Quando entidades que tratam de assuntos muito diferentes chegam às mesmas conclusões e sugerem soluções semelhantes para os problemas, então ambos devem ter razão em suas análises. É o que se pode dizer dos discursos do Papa João Paulo II, ao chegar ao Brasil, e do presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, dias atrás, ao encerrar a assembléia mundial daquele organismo. Os dois destacaram a terrível desigualdade social que assola o mundo, embora o Papa tenha se referido, agora, especificamente ao Brasil. E apesar de cada um ter uma doutrina e uma ótica próprias sobre o modo de resolver os problemas, ambos concordam na imperiosa necessidade de se agir com firmeza, em face das graves consequências que advirão do alargamento do fosso que separa ricos e pobres no planeta.
Hoje, o problema da miséria que afeta ponderável parcela da população mundial não preocupa somente entidades assistenciais ou religiosas, mas a todos que serão atingidos pelas desigualdades - e muitos já estão sendo. A desigualdade ameaça a estabilidade política e social e a continuidade do crescimento econômico de inúmeros países. Neles, os atingidos não são apenas os pobres e miseráveis, mas também os pequenos e médios negócios, que são - com seus milhões de empregados - os grandes motores da economia mundial. Pois quanto mais pobres houver, mais se vai deixar de vender e menos se vai produzir, empregar, pagar e contribuir.
A miséria não interessa nem aos empresários, nem aos empregados, nem aos governos. Não interessa à Humanidade. A miséria dos vizinhos destruiu o poderoso Império Romano e outros impérios tiveram o mesmo destino, antes ou depois, pela mesma causa. Talvez eles devessem mesmo acabar porque seus ciclos estavam no fim, mas isto não significa que a miséria tenha de ser sempre o agente final da destruição. Não é aceitável que a miséria sufoque um continente como a África, que mate de fome e doença todos os anos milhões de crianças na América Latina.
O alerta do Papa, que é o mesmo do presidente do Banco Mundial, não pode ser minimizado. Nem pode ser rebatido como ingerência nos assuntos nacionais. João Paulo II trata de algo que não tem fronteiras e não é um caso isolado. Sua preocupação com os miseráveis não tem nada a ver com a nacionalidade ou a religião dos que sofrem, mas com a dignidade e o direito de cada ser sobre a face da Terra. E o esforço para vencer a desigualdade e tirar o ser humano da miséria que oprime sua vida material e espiritual deve ser de todos, pois se todos ajudarem tudo será mais fácil.
A verdade indelével, neste final de milênio, é que somente a consciência do conjunto da Humanidade - e não somente de alguns iluminados - pode conduzir o mundo para as soluções que construam um futuro melhor para todos. Se não houver isto, haverá mais miséria e mais tragédia. O futuro será tenebroso e o Banco Mundial sabe disto. Lutar contra a miséria, como pediu James Wolfensohn, é um modo de garantir lucros e estabilidade, bem como de promover a dignidade material e espiritual do ser humano, como quer João Paulo II.
Para todo governante inteligente do Terceiro Mundo, enfrentar a miséria e resgatar os milhões de desvalidos é o seu maior desafio. Nesta sua visita ao Brasil, o Papa assume a defesa do ser humano em sua essência, como filho de Deus. E traz para os brasileiros um alerta e um estímulo a fim de que continuem seus esforços, com mais firmeza e objetividade, para construirmos aqui um lugar onde a morte e a doença pela fome, pela vileza, pelo mau salário, pelo desemprego, sejam banidas de nosso vasto futuro.

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