Editorial - Violência sem limites
Violência sem limites
A reação desamparada das pessoas que estavam no cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, quando o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, usando uma submetralhadora, matou três pessoas e feriu outras cinco, é por si elucidativa da evolução da violência entre nós e, o que é ainda mais sério, da quase impossibilidade que tem o cidadão comum de se prevenir contra isto. De certo modo, é a mesma reação diante dos atos terroristas, que marcaram o mundo no passado recente, quando inocentes foram mortos em vários países, atingidos pela ação absurda de pessoas que usavam a violência como um modo de agir sem sentimento ou respeito. Os objetivos buscados eram a justificativa suprema para qualquer atrocidade. A reação agora é idêntica, entretanto atos como os do estudante que imitam outros que vêm se sucedendo em países considerados mais desenvolvidos como os Estados Unidos, podem ser considerados ainda mais bárbaros porque sequer tem a lógica de uma posição política, ainda que distorcida.
A atrocidade cometida em São Paulo surge praticamente como o auge de uma era de violência absurda e tenebrosa, que ameaça destruir os próprios alicerces da sociedade. Não há policiamento capaz de prevenir este tipo de atitude. Mas o fato de o estudante ter tido tão fácil acesso a uma arma das mais potentes, deixa ainda mais clara a insegurança geral. As autoridades discutem, aqui como no exterior, medidas legais visando conter o comércio de armas, limitá-lo ou até impedi-lo.
Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais grave porque a maioria da população entende que qualquer tipo de limitação ao comércio e posse de armas colide com os direitos fundamentais assegurados pela Constituição. No Brasil, em tese, é mais fácil a ação oficial que pretende conter este tipo de comércio. Algumas medidas sérias já foram adotadas em relação à posse de armas. Todavia, tudo o que se tem feito serve apenas para o cidadão comum. Pois o marginal consegue armas sem maiores dificuldades. E até um estudante de medicina pode obter uma submetralhadora, bastando ter contatos e dinheiro.
Existe uma tentação de considerar o que aconteceu em São Paulo como um fato isolado, sem qualquer consequência. E este é também um modo inadequado de abordar a questão. O Brasil, de fato, não tem tradição neste tipo de violência. Somos, ainda, terceiro mundo, com chacinas, homicídios, violência familiar, mortalidade infantil, fome, miséria. Entretanto, não se pode deixar de perceber que, assim como estamos, há muito, importando maneirismos e modos culturais de outros povos considerados mais desenvolvidos, não é demais acreditar que outros desequilibrados possam repetir o gesto do estudante paulista. O que remete de novo à percepção sobre o aumento indiscriminado da violência que vem atingindo praticamente todo o país, em maior ou menor escala.
O noticiário policial, atualmente, chega a ocupar mais espaço que o político. A cota diária de violência vai das rebeliões em Febens e presídios a assaltos, ataques, crimes e mortes, sob os mais diferentes aspectos. A observação dos que sobreviveram ao ataque no Morumbi Shopping retrata a idéia generalizada de que não há segurança, atualmente, em parte alguma: nem em uma favela ocupada por traficantes, nem em um cinema frequentado pela classe média ou mesmo em um condomínio residencial de alto luxo. A violência chega a toda parte, o crime também. Neste clima verdadeiramente aterrador é que a sociedade precisa se recolocar, buscando novos caminhos para evitar uma situação que ameaça até mesmo os padrões de civilização atingidos pelo homem neste fim de século 20. Um desafio imenso para todos os cidadãos, para que não se convertam em reféns do crime e da violência.





