Violência que preocupa
Conforme estatísticas divulgadas ontem pelo Banco Internacional de Desenvolvimento, a América Latina é a segunda região mais violenta do mundo, depois de parte da África. Para enfocar este assunto, o organismo promove, na próxima semana, no Rio de Janeiro, um seminário com prefeitos e especialistas das principais cidades da região. Segundo o relatório do BID, a tendência crescente da violência na região nos últimos anos é alarmante. A taxa de homicídios na América Latina e no Caribe é a segunda mais alta do mundo, com uma média de 22,9 por 100.000 habitantes, isto é, superior ao dobro da média mundial de 10,7. Apenas a África subsaariana tem taxa maior, com mais de 40 homicídios por 100.000 habitantes. O documento destaca ainda que na América Latina, as taxas de homicídio aumentaram mais de 44% entre 1984 e 1994.
O estudo mostra que no quadro latino-americano as principais cidades brasileiras não ocupam as primeiras posições. Com efeito, a urbe mais perigosa do continente é Medellín, na Colômbia, com 248 homicídios por 100 mil habitantes, seguida de Cali, no mesmo país, com um total de 112. É sem dúvida um reflexo da situação criada ali pelos poderosos cartéis de drogas que controlam boa parte do crime organizado no mundo. Depois das cidades colombianas, as mais perigosas do continente são Guatemala, com 101,5 homicídios por 100 mil habitantes, San Salvador, com 95,4, e Caracas, com 76. Só então surge a primeira cidade brasileira, Rio de Janeiro, com o índice de 63,5 por 100 mil habitantes, seguindo-se Bogotá, com 63,5, e a segunda capital brasileira mais violenta, São Paulo, com 48,5. Não deixa de ser preocupante perceber que a média de todas estas cidades é superior à já elevada taxa do continente, o que evidencia a gravidade da situação.
Cariocas e paulistas em particular e os brasileiros de modo geral não precisam das estatísticas para saber o significado da violência urbana. Os números compulsados pelo BID chocam, mas são frios em sua essência. A realidade vivida no Rio, em São Paulo e em tantas outras capitais e cidades, grandes e médias do Brasil, é de tal modo assustadora que prescinde até das estatísticas. É quase impossível encontrar alguém nestes centros urbanos que não tenha sido atingido, de algum modo, pela violência. E esta situação, que torna a vida humana cada vez mais perigosa, precisa ser encarada com seriedade para que se possa, de fato, conseguir resultados efetivos. O seminário que o BID promove, intitulado ‘‘Programas municipais para a prevenção e atenção da violência’’ vai, justamente, analisar meios para reduzir estes assustadores índices de violência urbana. Obviamente o encontro é apenas uma fase de um trabalho muito mais intenso que deve ser realizado para que de fato se possa modificar este quadro.
O cidadão comum não se mostra muito animado diante da realização de seminários ou outro tipo de atividade como esta patrocinada pelo BID, com alguma razão. É possível perceber, sem a necessidade de discursos, estudos, números ou levantamentos, não apenas a explosão da violência mas as suas causas. A Colômbia, com sua negativa liderança, é um bom exemplo, deixando evidente o papel do crime organizado, em especial do narcotráfico, nesta calamitosa situação. Sem ações objetivas capazes de conter o tráfico, assim como sem uma atitude corajosa e firme destinada a modificar a caótica realidade da miséria no continente, os discursos e propostas cairão no vazio. O que se reclama é uma política conjunta, envolvendo de um lado os órgãos da segurança, para enfrentar o crime, e do outro os programas de combate à miséria, voltados para a melhoria das condições de vida da população latino-americana.

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