Alertados por uma informação que se revelou correta, um repórter e um fotógrafo da Folha se dirigiram na madrugada de ontem para a região de Sapopema, onde a Polícia Militar estaria se preparando para realizar uma ação de despejo contra sem-terra que haviam ocupado uma fazenda. O horário não era exatamente o mais adequado. Operações deste tipo deveriam ser feitas à luz do dia e dentro do estrito cumprimento da lei, pois, afinal, os invasores é que são, no caso, os infratores. E a diferença entre quem cumpre ou faz cumprir a lei e quem a rompe (no caso, sem dúvida, os invasores) é que a ação policial deve seguir os trâmites da legalidade. Caso contrário, acaba a força do Direito, dando lugar ao direito da força.
Entretanto, tanto o repórter quanto o fotógrafo puderam confirmar que, de fato, em plena madrugada, estava se articulando uma ação policial para a expulsão dos invasores. Os jornalistas chegaram ao local ainda no escuro, plena madrugada, debaixo de chuva. Por infelicidade, o veículo do jornal (facilmente identificável) atolou. E quando tentavam se orientar para sair, os dois profissionais foram cercados pela Polícia Militar, enfrentando momentos de temor e pânico enquanto eram tratados como criminosos da pior espécie, sob a mira de armas. O repórter chegou a ser algemado. Para conseguir se identificar, tiveram enormes dificuldades, em face da truculência de que eram alvo. E mesmo depois que, finalmente, deixaram claro que eram apenas jornalistas tentando cobrir um assunto - sem dúvida dos mais sérios -, acabaram imobilizados, mantidos por duas horas em situação constrangedora, debaixo de chuva, sem qualquer respeito por sua condição profissional ou pessoal. Depois, foram escoltados até o veículo, encalhado e deixados à própria sorte. Quanto à cobertura que foram fazer na madrugada, não houve qualquer possibilidade. Humilhados antes, cerceados depois, os jornalistas tiveram de voltar.
Há no episódio toda a truculência abusiva que é inaceitável, seja ela praticada contra um profissional no exercício de seu trabalho ou contra qualquer cidadão. Na verdade, todo o ato é abusivo e inaceitável. A Folha, importa rememorar, jamais se posicionou a favor dos que invadem terras, entendendo que este modo de agir é ilegal e absurdo. Entretanto, não se pode considerar que haja justificativa para uma reação ilegítima por parte dos representantes da lei, na tentativa de restaurar a legalidade, o que seria, no caso, o despejo dos invasores. No momento em que se considerar correta a ação abusiva da autoridade, em nome da lei, fica em perigo todo o arcabouço em que é baseada a estrutura social. O policial não é dono da lei, apenas cumpridor dela. Sua ação é limitada por ela, esteja ele perseguindo um criminoso ou cumprindo um mandado de desocupação de terras. E quando, para cobrir sua atividade, cerceia a atividade da imprensa e usa meios de força contra profissionais que apenas tentam realizar seu trabalho, há um abuso inaceitável e inconcebível. A missão maior da imprensa é informar, com ética, profissionalismo e liberdade.
A questão não envolve, apenas, a violência contra profissionais da imprensa. O que ressalta nisto é a percepção de que se policiais militares se sentem seguros de agir com truculência contra jornalistas, que, afinal, têm (quando escapam vivos) como tornar pública a violência, então o que farão e fazem contra pessoas comuns? É crucial insistir em que a ação violenta contra quem quer que seja, mesmo diante de criminosos reais, é inaceitável em um Estado de Direito. Nem a polícia, nem mesmo a Justiça, estão acima da lei. No caso específico da invasão, que é igualmente inaceitável, toda a reação tem de seguir os trâmites legais. Fora disto, não existe segurança para ninguém. A Folha espera que as autoridades apurem com todo rigor as responsabilidades e adotem as providências necessárias para que fatos como esses não voltem a acontecer, colocando em risco direitos constitucionais básicos. A Folha também tomará as medidas judiciais cabíveis.

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