Vexame e perplexidade
A reação diante da atitude do sr. Francisco Lopes, que se negou a firmar documento que implicaria em responder com a verdade às questões da CPI que investiga o sistema financeiro, foi de perplexidade. O ineditismo de se ver o quase depoente de uma CPI sendo levado para fora do recinto por um delegado da Polícia Federal, sendo preso e depois submetido a todos os trâmites do flagrante, somou-se à dúvida sobre os motivos pelos quais o ex-presidente do Banco Central preferiu submeter-se a uma situação assim vexatória, em vez de apenas concordar em responder às perguntas que seriam formuladas pelos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito. A negativa de assinar o termo implica, segundo se informa, não assumir o compromisso de dizer a verdade à CPI. Mas se havia a intenção - já que, afinal, o sr. Francisco Lopes sabia que deveria assumir algum tipo de compromisso -, ficam as dúvidas sobre os motivos pelos quais o ex-titular do BC se submeteu a tudo isso. Poderia ter se negado a ir, assumindo eventuais consequências, sem porém criar uma situação como a que se estabeleceu, de afronta mesmo à instituição que o pretendia ouvir.
Ficou difícil, sem dúvida, a posição do sr. Francisco Lopes. Como ex-presidente do Banco Central, não tinha o direito de se negar a prestar esclarecimentos diante dos fatos que a CPI está investigando. Dizer que já não está obrigado a nada, por não ocupar mais um cargo público, é não observar todo o alcance da questão. Embora não seja mais um funcionário público, tem o dever de prestar esclarecimentos sobre questões que envolvem o período em que dirigiu o BC. Tal obrigação é ainda maior diante da série de denúncias que anteciparam o depoimento, até com sérias dúvidas sobre os procedimentos do sr. Francisco Lopes como titular de uma empresa e, ao mesmo tempo, responsável pela direção do Banco Central.
Ao optar pelo silêncio, o sr. Francisco Lopes abriu uma oportunidade para as mais variadas especulações sobre o assunto. Pode ser uma forma de provocar o governo, que o deixou sem apoio neste momento, ou um tipo de provocação aos membros da CPI que já o criticavam antes do depoimento. A atitude pode, ainda, evidenciar o receio de não ter explicações convincentes. É possível, também, suscitar dúvidas sobre o eventual envolvimento de outras pessoas, de grande influência. De todo modo, a questão envolve muito mais que a declaração em si, mas inclui a ética, o zelo pela coisa pública, a fragilidade do sistema - enfim, o quanto o exercício de cargo público implica espírito coletivo. Como estratégia, a atitude do ex-presidente do BC também não foi das mais adequadas. Sua postura, sem dúvida, irritou os senadores, até porque representou uma total falta de respeito à CPI e à casa que a criou.
A negativa em assumir a verdade em seu depoimento, que tornava absolutamente inútil qualquer pergunta, foi sem dúvida a pior coisa que poderia acontecer e não só ao sr. Francisco Lopes. Agora, diante de uma postura absolutamente inesperada, mesmo quem considerava a CPI um meio de pressionar o Executivo reformula as idéias. Se o ex-presidente do BC não pode falar a verdade aos senadores sobre o que aconteceu enquanto dirigia a guardiã da moeda, é porque alguma coisa há a esconder. É a conclusão natural da opinião pública. Mas como o que acontece no Banco Central, como em todos os organismos públicos, é do interesse do povo, o detentor do poder em uma democracia representativa, é certo que agora se vai exigir a verdade. E, mais que isso, a punição dos que tenham, de algum modo, lesado o povo na gestão do Banco Central.

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