Editorial - Vencer o vício
O maior equívoco de um viciado em luta para se livrar da dependência é o de pensar que o conseguiu. Não por outro motivo, os dependentes do álcool, batalhando para superar o vício, sempre se declaram alcoólatras em recuperação. Assim é com todos os vícios assumidos pelo ser humano em particular, como também os que agem de modo ainda mais grave atingindo o organismo social. É o caso deste verdadeiro câncer econômico chamado inflação, um mal que o Brasil vem enfrentando há décadas e que, mesmo quando aparentemente vencido, pode voltar com redobrada virulência.
O Plano Real, mais apropriadamente chamado plano de estabilização econômica, representou sem dúvida um dos mais eficientes programas já adotados no País para enfrentar esta terrível e avassaladora doença, a inflação. Dizer, como alguns repentinamente começaram a fazer, que o plano fracassou, igual a tantos outros, que era uma enorme mentira agora revelada é quase uma estupidez. O plano era (e continua a ser) bom. Deu resultados por quatro anos. Mais ainda, foi melhorando com o tempo. É importante sempre lembrar como as coisas foram se processando. No primeiro ano ainda houve uma inflação elevada (embora, sem dúvida, bem inferior à que ocorria antes do lançamento do projeto). No ano seguinte, caiu mais ainda, até que se chegou ao índice de 1998, os mais baixo em mais de 50 anos. Não era, como diziam os da oposição, em 1994, um plano eleitoreiro que naufragaria (como o Plano Cruzado) logo depois das eleições.
Agora, porém, após quatro anos de sucesso, o plano parece em perigo. A inflação mostra de novo sua face. Repentinamente, a população descobre que a doença que parecia extirpada ainda persiste. Os brasileiros estavam, após anos de inflação cada vez mais pesada, intoxicados. E viciados. Cada um criou seus próprios mecanismos, não só de defesa, mas de adaptação. Levar vantagem não foi só um slogan de propaganda, mas um modo de vida. Esperteza era uma exigência. Cada um queria ser mais vivo que o outro. E todos juntos não só viviam a inflação, como a alimentavam. O sistema afundava o País, destruía até a cidadania.
Os eventos dos últimos dias assustam. Repentinamente, a carestia parece estar de volta. Infelizmente, boa parte disto representa a prova de que o mal não foi extirpado, apenas estava adormecido. Bastaram poucos eventos para que alguns já começassem a se fazer de espertos. Em alguns setores, já se percebe a volta da exploração, do abuso, da especulação, da malandragem. O momento é grave não só por causa deste redespertar do vício, que traz o que de pior existe em cada um, mas devido à possível letargia, provocada pelos anos de quase estabilidade ou por uma fatalista aceitação de que tudo vai degringolar de novo.
Isto, porém, não precisa acontecer. Não é inevitável. O que se reclama, o que é necessário é que as conquistas de todos estes anos sejam observadas e mantidas. No meio de todas as dificuldades há alguns fatores que ajudam: diante da própria recessão, o consumidor não está em condições de aceitar, sem reclamações, as tentativas espertas dos que querem tirar proveito da situação. No caso, a própria falta de recursos funciona como um anteparo à especulação. Isto, porém, é só uma parte. O que é importante é que se mantenham os conceitos (e as vitórias) da cidadania. O consumidor-cidadão pode agir contra a exploração, contando inclusive com órgãos oficiais que já estão agindo, contra a especulação. Não aceitar a exploração e o abuso é hoje o melhor caminho para continuar vencendo este tenebroso vício da inflação.





