Com o humor cáustico que lhe era peculiar, o falecido jornalista Paulo Francis dizia que o Brasil era o único país do mundo que havia entrado em decadência sem jamais ter atingido o apogeu. O comentário escondia a tristeza de perceber que, apesar de todo o seu potencial, o Brasil não conseguia sair do lodaçal do subdesenvolvimento. Neste momento, quando uma crise internacional provoca medidas complexas, capazes de provocar nova onda recessiva, o comentário do jornalista surge naturalmente na memória porque é esta a impressão que se tem: nos últimos três anos o Brasil parecia que finalmente iria deslanchar. Os efeitos positivos do plano de estabilização eram indicadores preciosos de que o Brasil conseguiria sair do marasmo para assumir sua condição de potência no mundo, em condições de resgatar a dívida social que ainda persiste em relação a milhões de marginalizados. Entretanto, com a nova crise mundial, as medidas de contenção trazem preocupação sobre o que poderá acontecer. Daí a idéia de que podemos entrar em decadência, sem jamais ter atingido o auge.
Esta, porém, não precisa ser necessariamente a consequência da atual crise. Importa insistir que o Brasil conseguiu, não só nos três anos passados, mas nas últimas décadas, mudar de modo concreto sua realidade. O plano de estabilização lançado durante o governo Itamar Franco foi o corolário de uma série de outras importantes conquistas da nacionalidade, o que inclui, sem nenhuma dúvida, a grande vitória representada pelo fim do autoritarismo através de um processo fantástico de consciência que não incluiu o confronto civil. Poucos países, em toda a história da Humanidade, conseguiram superar um período totalitário sem recorrer às armas, sem produzir uma hecatombe interna, sem deixar marcas ainda mais terríveis sobre seu povo.
Aquela foi a grande vitória de um processo que se sedimentou durante anos, enquanto crescia a consciência do povo sobre seu próprio valor. O fim da ditadura poderia marcar o início de uma era nova. Não foi o que ocorreu, possivelmente até como resultado natural da transição: uma vez que não houve rompimento, todo o processo seguiu de modo mais lento. E houve, no caminho, alguns desacertos, culminando tudo com o drama que levou ao fim do governo Fernando Collor de Mello. Curiosamente, e até de forma inesperada, foi o sucessor legítimo de Collor, o inexperiente vice-presidente Itamar Franco, quem conseguiu produzir o processo que resultou com o plano de estabilização.
O que se viveu até agora, a partir do Plano Real, não foi um fim, mas uma sequência. E os sucessos conseguidos não são tão frágeis que possam se esboroar devido a uma crise, ainda que dura, como a atual. Trata-se, porém, de restaurar a ótica efetiva diante das dificuldades e de se manter o processo, apesar dos obstáculos que estão pela frente. Juros mais altos, trazendo em sua esteira aumentos nos custos, perigo de redução da atividade econômica e tudo o mais que se conhece, nada disto é novidade para os brasileiros. Como também é imperioso perceber que ponderável parcela do sucesso que foi obtido pelo plano de estabilização, ao lado de sua competente engenharia, decorre da disposição do povo, que tem sido o grande agente desta mudança. O que se impõe neste momento é a manutenção, por parte da população, do espírito que produziu este resultado. Paralelamente, tem este povo todo o direito e exigir que seus dirigentes façam adequadamente a parte que lhes compete para não permitir que as previsões pessimistas se convertam em dura e lamentável realidade.

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