Editorial - Vencendo desafios
Os profetas do apocalipse que antecipavam o fim dos tempos neste Natal de 1998, anunciando uma crise irreversível que afundaria o Plano Real, mais uma vez falharam redondamente. O comércio, por quase todo o País, festeja um movimento igual e, em muitos casos, superior ao do ano passado. Houve mudança em certos hábitos, alguns produtos encalharam, mas o consumidor mostrou que está confiante, apesar da onda de quebradeiras vinda da Ásia. A situação ainda é crítica na Coréia do Sul e preocupante no Japão, mas o Brasil não comunga da visão pessimista dos que sempre anunciam o pior.
Diz o ditado popular que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Não há pessimismo, mas também não há otimismo leviano. Uma dose de precaução, ou mesmo de receio, é necessária para uma coletividade que mal despertou para a realidade da vida sem inflação, exigente e competitiva. Antes, a indexação amortecia o choque da hiperinflação. O dinheiro depositado no banco ou na caderneta de poupança inchava sozinho, o suficiente para iludir o depositante com a impressão de que ele estava ganhando da inflação. Hoje, não há ilusões e só vai sobreviver quem souber fazer melhor. Não há nada de ruim nisso. Pelo contrário.
O bom desempenho do comércio neste fim de ano é ilustrativo. Quem souber competir, fazendo o melhor preço, e, portanto, o menor custo, seguirá em frente. Quem não conseguir, afundará. E os resultados das vendas desarmam parte do quadro dantesco que os terroristas do futuro faziam em relação a 98. Com efeito, vendas agora significam encomendas para a indústria no começo do próximo ano. Com um detalhe da maior relevância: o movimento comercial não produziu nenhuma bolha inflacionária.
Festeja-se neste final de ano uma fase em que os preços permanecem em patamares aceitáveis, os descontos predominam e nem mesmo o tranco dos juros do pacote de novembro produz efeitos piores. Inclusive porque o consumidor brasileiro vem pagando juros elevados mesmo antes do pacote, uma herança dos tempos da hiperinflação.
O ano fecha, também, com os mais baixos índices de inflação desde que o País começou a mensurar o custo de vida. Por incrível que pareça, nem mesmo os mais otimistas imaginaram, no final do ano passado, que o Brasil chegaria a dezembro de 97 com uma inflação anual abaixo dos 5%. Apesar do choque asiático e da voracidade dos reajustes de tarifas, taxas, impostos e preços controlados, alguns muito acima da inflação do período. Já há previsões de que a inflação do próximo ano ficará em 2,5%. Será muito?
Certamente poderá ser ainda menor se o Governo e o Congresso completarem o trabalho a que foram chamados nas eleições de 1994. A convocação extraordinária do Congresso em janeiro e fevereiro vai dizer que sim ou que não. Se as reformas tributária, previdenciária e das leis do trabalho saírem, o ano de 98 sepultará o dragão da inflação com uma espada de prata enfiada na testa. E não só, pois as reformas vão fazer a economia expandir-se num ciclo de crescimento nunca visto por aqui.
O Brasil completa a travessia de 1997 com o desafio do emprego atravessado no caminho. Se somos capazes de matar o dragão, ainda não conseguimos melhorar a oferta de emprego nem derrubar o desemprego. Mas avançamos. Depois dos duros anos do regime militar e do caos econômico, a população descobriu sua própria força. Não é mais uma gente aereamente despreocupada, mas uma coletividade que pode influir em seu futuro e caminhar na direção que julga ser sua destinação natural.
Nesta época que exige mudanças profundas, os brasileiros estão conseguindo ultrapassar os problemas, com persistência e coragem. E desenham o futuro sem levar em conta os arautos do caos, sem aceitar mais de modo passivo as ameaças ou os sustos. Cresce em todos a convicção de que as dificuldades existem para ser vencidas, desde que haja coragem e bom senso. Virtudes capazes de derrubar todas as previsões negativas e superar o que parecia impossível.





