Uma reclamação dos governadores em relação às dificuldades que enfrentam para honrar os compromissos assumidos está intimamente ligada a uma questão que afeta, igualmente, as próprias contas do governo federal e a própria vida da população de modo geral: é a taxa de juros. Sabe-se que as autoridades resolveram usar neste momento, ainda mais diante da liberação da taxa cambial, os juros como fator destinado a evitar o retorno da malfadada inflação. É uma tática, sem dúvida, defendida com fervor pelos especialistas internacionais. Ocorre que a elevação da taxa dos juros tem efeitos colaterais imensos, influindo sobre praticamente toda a economia. Para os governos, tanto o da União quanto o dos Estados, juros mais altos representam dificuldades adicionais, até porque ampliam os débitos. Quanto aos efeitos de uma política de juros altos sobre a atividade privada nem é preciso ser entendido para perceber os danos. O que se tem, como consequência direta na economia, é precisamente uma retração que, além de implicar no agravamento das dificuldades dos governos para pagar suas dívidas, também atua como elemento ativador da recessão. E se é certo que tudo isto pode ser considerado aceitável para evitar o mal maior da inflação, não se pode desconhecer que a continuação de tal política por muito tempo tende a produzir complicadores que agravam a situação, com perigos até para a própria estabilidade social, algo que não pode ser desconhecido ou deixado de lado.
Sabe-se que a crise que explodiu no País no começo do ano provocou uma avalanche de consequências, obrigando o governo federal a atuar em vários campos ao mesmo tempo. E cada ação provoca uma reação, levando quase que à necessidade de verdadeiros malabarismos a fim de resolver problemas de um lado, sem criar dificuldades maiores do outro. Toda esta verdadeira ginástica é muito complicada, agravada por vários fatores, como a anunciada moratória do governo do Estado de Minas Gerais. Todavia, não há alternativas. É preciso lutar na esfera legislativa (e em certo sentido o Congresso desta vez acabou cumprindo sua parte), equilibrar as contas na área interna, manter a confiança dos investidores, enfrentar a ganância dos especuladores - com a agravante de que, no caso, misturam-se tanto os externos quanto os internos -, ao mesmo tempo em que se faz necessário enfrentar a ameaça do retorno da inflação. São áreas por vezes conflitantes que exigem do governo uma imensa habilidade.
O desafio, por maior que pareça, tem de ser enfrentado. A firmeza de ação do governo, neste momento, também constitui um fato importante. A queda-de-braço que parece ter se formado entre o Executivo federal e alguns governadores constitui, neste quadro, uma dificuldade adicional, desnecessária e que precisa ser superada -, como aliás parece estar ocorrendo. Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso se negou a manter um encontro com os governadores, como protesto por uma série de exigências formuladas pelos seus interlocutores, mostrou firmeza. E agora, revela abertura ao diálogo ao anunciar que aceita, sim, receber os 27 governadores para um encontro formal no Planalto, apesar de todas as divergências. Não se pode confundir firmeza com intransigência. Inegavelmente, parte das dificuldades dos Estados decorre de medidas adotadas de modo geral pela União. Logo, o ideal seria uma postura firme, mas não intransigente, coroada agora pelo esforço efetivo para o encontro e o debate que, sem dúvida, podem oferecer caminhos.
Ouvir os governadores neste momento é importante. O mesmo é possível ponderar a respeito de outros setores da sociedade, incluindo aí os empresários urbanos e rurais e o segmento trabalhista. A crise não é um problema só do governo federal e nem é adequada uma postura radical por parte da União ante os reclamos gerais. Ademais, é fora de dúvida que neste momento um fator de inegável importância para que o Brasil possa enfrentar as atuais dificuldades seria um esforço conjunto, envolvendo políticos, empresários, trabalhadores, povo, todos, enfim. Uma união que, inclusive, esteja acima dos interesses de partidos, que por vezes conflitam com o interesse maior do País. A tentação, por parte de alguns políticos e partidos, de capitalizar as dificuldades do governo federal, é grande. Entretanto, uma política de dificultar as coisas apenas para piorar os problemas do presidente e de seu governo constitui até, neste momento, uma atitude que poderia ser considerada impatriótica.
Será, sem dúvida, pela união de esforços na busca de saídas que o Brasil poderá encontrar respostas às atuais dificuldades. Este é o momento para uma reflexão madura e adulta em relação aos problemas, partindo-se da premissa natural de que o desejo de todos é o de buscar soluções capazes de permitir que o país supere a crise com as menores perdas possíveis, inclusive em relação ao trabalho e ao desenvolvimento. Até por isto, uma funda análise sobre a política de juros, feita através do debate de todos os envolvidos na questão - e os governadores são parte interessada e atingida pela questão -, além de outras medidas que compõem o bloco das decisões que a União vem adotando, constitui passo importante para começar a sinalizar para novos e melhores caminhos para o País.

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