Editorial - Uma grata surpresa
Editorial
Uma grata surpresa
O pacote econômico da semana passada, que causou impacto também pelo fato de nos trazer à memória os anos negros da hiperinflação, está sendo assimilado aos poucos pela população e pelos principais empresários do País. Mas, apesar das críticas vindas de alguns setores - da Oposição e mesmo de aliados do Governo -, as previsões da maioria dos empresários ouvidos pela imprensa e de técnicos são mais otimistas do que pessimistas. É uma grata surpresa. As medidas aumentam tarifas, preços e impostos, não sem antes elevar os juros ao segundo nível mais alto do mundo. O pacote, altamente impopular, tinha tudo para ser bombardeado por todos os lados, especialmente pelos empresários, e com boas razões, devido aos juros.
Felizmente, as primeiras previsões surgidas uma semana depois são mais positivas até do que o mais otimista poderia esperar. Coincidindo com opinião desta Folha logo após o anúncio das medidas, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da USP (Fipe) prevê uma aceleração nos preços em novembro e dezembro, seguida de queda no médio e longo prazo, em consequência do esfriamento da economia.
A inflação média mensal (pela Fipe) está em torno de 0,3%. Sem o pacote, este mês seria de 0,2%. Com o reajuste dos combustíveis, será de 0,5%, apesar da queda dos negócios, especialmente as vendas a prazo. Mas a partir de janeiro a inflação deve se acomodar em torno de 0,3% ao mês, e a perspectiva daí para frente vai depender da política monetária. Se os juros continuarem altos, a tendência é de queda mais acentuada.
Não é muito diferente a previsão da MCM Consultores, também de São Paulo: a inflação de novembro deve ficar em 0,5%, baixando um pouco em dezembro. Nos primeiros meses de 98, a previsão da empresa é que a inflação não deve ceder muito, devido a reajustes nas tarifas públicas. Ainda assim, a projeção não tem nada de alarmante, nem indica qualquer perigo de se voltar à escalada inflacionária do passado.
Em relação ao mercado externo, também as previsões são muito melhores do que se supunha. Industriais, consultores e bancos acreditam que as importações brasileiras vão crescer menos do que as exportações em 1998, ajudando a reduzir o déficit comercial do País. Duas consultorias estimam para as importações um crescimento entre 2,7% e 3,5%, cinco vezes menos do que hoje. O processo de recuperação das reservas internacionais será lento e gradativo, mas começará a acontecer dois a três meses depois do pacote.
Embora o esforço para antecipar tendências seja sempre complicado, até porque fatos novos ocorrem e podem alterar o quadro, é oportuno registrar que o céu não é tão escuro como parecia a muitos, uma semana atrás. São estimativas que desanuviam o ambiente e nos fazem pensar que o custo de nada fazer ou de desvalorizar o câmbio - trazendo de volta a hiperinflação - certamente seria muito pior.





