EDITORIAL - Um recuo estratégico dos grevistas não será um fracasso da campanha reivindicatória
Pelo fim da greve
Não é tão fácil como se imagina solucionar o problema da greve nas universidades estaduais do Paraná, que já dura mais de setenta dias. Porque o governo tem limitações, como a falta de recursos financeiros e os entraves impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). É justa a reivindicação dos servidores, especialmente os que atuam no magistério, sempre mal remunerados, mas no andamento do presente exercício administrativo é difícil para o governo atender à reivindicação de aumento salarial. Terça-feira, no Palácio, a reunião do governador com a comissão de representantes de Londrina, para discutir a questão, não fez grandes avanços.
O que se condena é a demora do governo em expor claramente a situação e permitir que os universitários fiquem sem aulas durante tanto tempo; que os próximos vestibulares também possam ser prejudicados, afora os prejuízos paralelos que advirão e que já estão acontecendo. A verdade é que muitos erros da estrutura administrativa governamental vêm de muito tempo, antes da existência da LRF, e essa nova lei encontrou as máquinas públicas viciadas, com sobrecarga de gastos, agora mais difíceis de serem revertidos.
Excesso de funcionalismo, apadrinhamentos políticos, esbanjamento e desperdício marcaram as administrações públicas, não só no Paraná mas em todo o País. Com tantos ralos, os que realmente trabalham - especialmente os servidores das áreas de ensino, saúde e segurança - acabaram vítimas da escassez de recursos e dos baixos salários.
A partir de agora, sob o garrote da Lei de Responsabilidade Fiscal, será possível sanear as impurezas do sistema e, progressivamente, ir fazendo justiça a esses servidores. Não que se deva abandonar soluções emergentes, como a proposta de um abono, que está sendo examinada, mas não se pode esperar grandes saltos das negociações que agora se realizam. E em tal situação pouco resolverá a intransigência dos grevistas.
A estrutura dos governos, nas três esferas, vem passando por um processo de cirurgia neste ano e meio de existência da nova lei de controle e disciplinamento dos gastos públicos. Um recuo dos grevistas, para que se restabeleçam as aulas e tudo volte à normalidade, não significará um fracasso do movimento, mas uma solução estratégica, que não prejudicará a continuidade da campanha reivindicatória. O advento da LRF está forçando as administrações públicas a um enxugamento da máquina estatal, e já houve grandes progressos. Mas o processo não é simples, pela existência dos males já instalados e que não vêm de agora.
Se o momento reclama persistência e luta, pela melhoria dos sistemas, pela moralização das estrutura dos governos e pelo melhor ganho de quem trabalha, também recomenda sensatez e flexibilidade nas negociações, o mais possível sem o recurso das greves. Em face da realidade, não se poderá obter tudo de uma vez. O retorno às atividades, sem prejuízo do movimento reivindicatório, é a solução mais acertada no momento.





