A decisão do juiz da 6ª Vara Cível, de Londrina, Celso Seikiti Saito, atendendo à ação do Ministério Público em relação a atos de corrupção na administração municipal, é hoje o capítulo mais importante de um processo que pode representar o começo de uma mudança vital nos usos e costumes desta República ainda plena de vícios. Os desdobramentos da questão, agora, oferecem uma imensidade de opções. O mais relevante, contudo, é o sentimento sobre a possibilidade real de se punir quem tenha, de qualquer modo, roubado o dinheiro do contribuinte. Vale até rememorar que há pouco mais de um mês, abordou-se, em Editorial, a falta de atos reais para punir os envolvidos na ‘‘avalanche de denúncias que atinge, em praticamente todos os pontos do País, homens públicos e autoridades, revelando abusos, fraudes e até crimes’’. ‘‘Incrível como possa parecer – destacava o comentário –, esta é a impressão diante do acúmulo de acusações e da falta de soluções efetivas, de resultados reais’’. A ampla ação intentada pelo Ministério Público de Londrina pedindo providências judiciais, e a decisão do juiz Saito, constituem, neste quadro, como que uma resposta objetiva e histórica à coletividade, demonstrando concretamente a possibilidade de se mudar um quadro que parecia imutável.
A grande conclusão agora é a de que, sim, é possível punir. Existem instrumentos legais, a democracia não é, como se pode pensar, uma instituição sem força e sem condições para se defender. O problema, hoje como sempre, não é das leis ou da instituição, mas da vontade de quem deve fazer respeitar os instrumentos legais. Aquela idéia que faz parte mesmo da formação nacional segundo a qual só pobre vai para a cadeia, só quem rouba pouco é atingido pela lei, começa a ser modificada. Sem dúvida, ainda se está longe de ver o final de todo o processo, ainda há muita coisa a ser desvendada e, comprovando-se todas as denúncias, será preciso ver a punição dos responsáveis, a restituição do que foi desviado, a perda dos direitos políticos de quem tenha cometido delitos eleitorais e, naturalmente, a prisão de quem tenha infringido a lei penal.
O processo envolvendo o prefeito de Londrina atinge também, como se sabe, outros escalões da administração, incluindo o Executivo e o Legislativo do Estado e até alguns nomes do Judiciário. Isto significa que na continuidade da ação, e com a apresentação de novas ações por parte do Ministério Público (como ocorreu ontem), é certo que haverá ainda muito mais denúncias a verificar, muitas informações novas a acrescentar, não sendo agora sequer possível avaliar até onde vai o processo. O que se pode esperar, porém, é que avance, continue e chegue ao final, com todas as consequências. É certo que desde agora a questão já está provocando uma avalanche política e, com certeza, no correr dos processos, pode-se esperar mais agitação.
Estes últimos acontecimentos estão pondo Londrina em triste evidência nacional. O desenvolvimento da questão, porém, com esta corajosa decisão do titular da 6ª Vara Cível da Comarca de Londrina, traz uma luz diferente porque implica na esperança de decisões capazes de levar a um ataque frontal e completo aos mecanismos de corrupção, tão difundidos pelo País. Deste modo, este processo que começou em Londrina, e pode provocar consequências diretas sobre a política de todo o Estado, também surge como uma esperança para todos os brasileiros, cansados de, como já bradava no começo do século Rui Barbosa, ‘‘ver triunfar a nulidade’’, podendo-se acrescentar aí a hipocrisia, o abuso e tantas outras mazelas que têm feito parte da vida política do Brasil desde os primórdios.

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