Editorial - Um Brasil melhor
No quarto ano de existência do real, o Brasil tem motivos concretos para comemorar, como aliás destacam pesquisas de institutos confiáveis. Com a engenharia do plano de estabilização, o país conseguiu efetivamente realizar uma proeza considerada quase impossível: conter uma inflação catastrófica sem provocar os terríveis efeitos colaterais de uma recessão que, sem dúvida, poderia dar resultados muito mais graves para a sociedade. Na realidade, este era o grande desafio. Sabia-se que era factível conter boa parte da inflação brasileira pela simples fórmula da desindexação. Isto já havia sido feito com resultado inicial positivo, como no Plano Cruzado. Entretanto, aquele, como outros planos que se sucederam, falhava na engenharia e na falta de coragem. Adotava, embora o país já estivesse vivendo sob a redemocratização, normas verdadeiramente ditatoriais, como o congelamento de preços e salários, medidas que não funcionam - até porque, a economia não é uma ciência política e não se sujeita a leis, por mais bem intencionadas que sejam. Planos como aqueles reclamavam atitudes duras, inclusive com a aceitação de normas recessivas que apavoravam os políticos por suas consequências.
A engenharia do plano de estabilização prescindiu do congelamento totalitário. Começou de modo simples, realizando a indexação plena da economia, através do mecanismo da URV, uma quase moeda que foi, sem traumas, substituindo a moeda deteriorada do país. Ao mesmo tempo, a criação do Fundo Social de Emergência propiciou condições ao governo para estabelecer o equilíbrio das contas públicas até que reformas estruturais - que começavam a ser encaminhadas - criassem novas condições para a economia. Quando o real foi finalmente lançado, há quatro anos, o Brasil estava melhor preparado para a nova realidade que se esboçava.
A trajetória da nova moeda foi diferente das anteriores, surgidas no bojo dos outros planos. E um efetivo e competente acompanhamento das autoridades econômicas representou fator determinante para os primeiros êxitos, que foram solidificando a posição do real junto ao povo. Este processo foi tão mais importante na medida em que o apoio popular à nova situação acabou se tornando fator fundamental para o sucesso continuado do projeto. Com efeito, a tão necessária mudança de mentalidade, que é imprescindível em mudanças radicais da vida econômica, aconteceu quase que naturalmente. Não foi preciso que o governo saísse trombeteando as coisas, criando slogans ou frases de efeito, nem foi necessário produzir um confronto entre patrões e empregados, vendedores e consumidores. As coisas foram acontecendo sem sobressaltos, dando solidez ao programa.
Na entrada de seu quinto ano, o programa enfrenta alguns sérios problemas, que são inegáveis e estão à vista. O desemprego é preocupante e um desafio presente. Ademais, a demora na aprovação das reformas estruturais, as concessões políticas feitas no encaminhamento das mudanças, a necessidade de se prorrogar o Fundo Social de Emergência, inclusive com outro nome, mas com a mesma finalidade, são fatos que preocupam. O que não pode deixar de ser percebido, porém, é que a inflação, contida nos primeiros tempos, continua em queda, registrando níveis cada vez mais baixos. É o ponto-chave, vital, a garantir que com a persistência de todos, povo e governo, o plano continuará garantindo os benefícios até agora conquistados, resolvendo ao mesmo tempo os problemas que ainda existem.





