Editorial - Um bom começo
Nem bem entrou em vigor, dia 22, o novo Código de Trânsito Brasileiro já é um sucesso nas ruas e estradas do País. Por toda a parte o número de acidentes teve quedas expressivas no último fim de semana, o primeiro com o CTB em vigor. Não só acidentes, mas o número de mortes - que é mais importante - também caiu significativamente. As quedas são de 50% ou ao redor disto, em geral. Até o número de multas caiu, nas mesmas proporções. No Paraná, em São Paulo, em todo o Brasil. Mudou o Brasil, ou mudaram os brasileiros?
O novo Código não é uma peça perfeita. Longe disto, há muita coisa nele que precisa ser melhor explicada, regulamentada ou simplesmente esquecida. Ninguém sabe como serão multados, por exemplo, pedestres e ciclistas infratores. É preciso regulamentar. Ninguém sabe também o que fazer com os automóveis que não têm encosto para a cabeça no banco de trás. Muitos são carros novos, zero quilômetro, hoje, e ilegais a partir de 1º de janeiro de 1999 - isto é, no ano que vem. É preciso esquecer.
Há exageros em outros itens, como multar com R$ 73 o motorista que está dirigindo com o braço esquerdo apoiado sobre a porta. O bom senso diz que é caso para uma advertência, e só seria motivo para multa se o motorista fosse reincidente. Porém, não foi previsto registro de advertências para este e outros casos no novo Código.
Também é insensato multar, apreender e remover o veículo porque o alarme antifurto disparou. Ora, nenhum motorista faz o alarme de seu carro disparar de propósito. Seria mais justo multar o fabricante do alarme... O que o Código poderia prever, neste item, é o uso somente de alarmes que desliguem automaticamente o som após um certo tempo. Neste ponto, o Código favorece o ladrão de carros, pois induz os proprietários a não acionar o alarme.
Mas, o novo Código é um sucesso. Os números do último fim de semana, no Paraná, em São Paulo e em todo o Brasil, comprovam. Mas aí pode estar um fator que os mais velhos conhecem muito bem. Em nosso país, é muito comum as pessoas temerem em massa o que lhes pode acontecer no dia seguinte e, dois dias depois, passado o susto, voltarem para a vidinha de antes. Será preciso esperar outros fins de semana para confirmar o que aconteceu no último.
No entanto, uma verdade salta aos olhos: em qualquer lugar do mundo, o bolso fala muito mais alto que a razão. E sente mais do que todos os
outros sentidos corporais. Infelizmente, para os brasileiros respeitarem leis de trânsito não é suficiente ver corpos dilacerados na televisão, carros despedaçados nos postos da Polícia Rodoviária ou ter parentes mortos em acidentes. É preciso cobrar caro pela infração deliberada.
Aliás, em nosso favor deve-se dizer que é assim em qualquer lugar do mundo civilizado. Multa pesada é um excelente remédio para quem não tem educação. Os europeus e os norte-americanos, canadenses incluídos, têm um trânsito muito disciplinado nas cidades e nas estradas não só porque a educação é de Primeiro Mundo, mas porque o menor deslize é punido com multa pesadíssima. E também porque o poder público está presente, principalmente fazendo estradas de primeira e manutenção de primeiríssima.
Assim, dá gosto cumprir as leis. Espera-se que, no Brasil, um dia tenhamos o mesmo gosto. O novo CTB está sendo um bom começo.





