Editorial - TV Câmara
Primeiro foi o Senado, agora é a vez da Câmara Federal que acaba de inaugurar seu próprio canal de TV. Nesta época em que as comunicações ocupam espaço cada vez mais importante, o presidente da Câmara, deputado Michel Temer, entendeu ser necessário criar este novo veículo que, segundo afirma, ajudará o Congresso a cumprir o preceito constitucional de transparência dos atos públicos. Além disso, de acordo com ele, garantirá espaço a todos os deputados para que se comuniquem com a população, permitindo à sociedade acompanhar de perto as atividades do Legislativo. O presidente Fernando Henrique Cardoso, em pronunciamento transmitido pela TV Câmara, considerou muito positiva a iniciativa, entendendo que é fundamental o acompanhamento, pela população, do que acontece no Congresso Nacional.
Este novo veículo de comunicação vai custar aos cofres públicos (entenda-se aí, ao povo) R$ 143 mil por mês. A reforma do prédio da Câmara para a instalação da TV custou R$ 360 mil; a compra de equipamentos atingiu um R$ 1 milhão. Mas o discutível, aqui,é precisamente a necessidade de a Câmara Federal, assim como o Senado ou qualquer outro órgão do Poder, ter um canal de TV, ou mesmo uma emissora de rádio ou um jornal exclusivo.
Quando o presidente da Câmara afirma que o canal de TV torna mais direta a comunicação com o povo, está confrontando o papel da imprensa no processo democrático. A atividade parlamentar reclama uma plena divulgação. Todavia, esta tarefa cabe aos meios de comunicação. E, no Brasil, apesar de tantas críticas que se possa fazer a eles, é certo que têm cumprido de forma efetiva o seu papel. Durante a ditadura, muitos profissionais da imprensa foram vítimas de perseguição (houve até mortes) por causa do exercício corajoso de seu trabalho. Hoje, em plena fase democrática, o trabalho jornalístico pode até ser menos perigoso, mas continua igualmente sendo feito de modo objetivo e correto.
No momento em que as notícias sobre as atividades da Câmara, em plena convocação extraordinária, resultam em críticas - e a contínua falta de quórum, no fim e no começo da semana, ameaça adiar ainda mais importantes decisões -, merece meditação esta necessidade de se criar um veículo exclusivo para divulgar o que faz aquela Casa. Dizer que, com a implantação da TV, vai haver um aumento na frequência parlamentar, até pelo interesse de cada deputado aparecer para o público, não chega a ser uma justificativa para o dispêndio que se fez. Afinal, os deputados deveriam estar presentes ao trabalho, com ou sem TV, porque para isto foram eleitos e para isso recebem,ainda mais neste período de convocação extraordinária que tanto custa aos depauperados cofres da União.
Embora esta nova emissora de TV possa, certamente, ajudar na divulgação pessoal dos parlamentares, é certo que a iniciativa traz à memória a prática comum durante períodos totalitários, quando os responsáveis pelo poder, ao tempo em que amordaçam a imprensa, usam os meios de comunicação para transmitir o que queiram. Ou seja, a versão deles.
O País conseguiu, com uma grande e corajosa participação dos meios de comunicação, vencer a ditadura e reimplantar a democracia. Todavia, o triste hábito deixado pelo totalitárismo, de tentar se impor perante a opinião pública com divulgações diretas, parece ainda muito difícil de extirpar. Agora, ao lado das transmissões em cadeia nacional, convocadas pelo Executivo várias vezes, o Senado e a Câmara entram em cena, com seus próprios veículos.





