Editorial - Trégua de Páscoa
O Vaticano pediu à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e aos sérvios no Kosovo que observem uma trégua de Páscoa de uma semana, segundo anunciou ontem o ministro das relações exteriores do Vaticano, monsenhor Jean-Louis Tauran, após sua entrevista com o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. O fim de todas as ações militares durante a semana que separa as Páscoas católica e ortodoxa (4 e 11 de abril) seria um gesto de grande humanidade, disse Tauran. Essa iniciativa deve ser acompanhada por medidas concretas em terra, para que ninguém aproveite a trégua para seus objetivos. Uma trégua permitiria às organizações humanitárias regressarem (ao Kosovo) e fazerem seu trabalho urgente e indispensável com toda segurança, assinalou. Devemos fazer triunfar a paz, disse, indicando que este é o sentido da mensagem que entregou ontem a Milosevic em nome do papa João Paulo II, que escreveu idênticas cartas ao presidente Bill Clinton e ao secretário-geral da Otan, Javier Solana.
Nesta época, considerada sagrada pelos cristãos, que são maioria na Iugoslávia, entre os membros da Otan e também nos Estados Unidos (que participam das operações militares), o apelo do Papa pode até ser considerado oportuno. Afinal, trata-se de pedir que os homens parem com a destruição e a morte, rememorando o exemplo de Jesus, Sua entrega pela Redenção da Humanidade. Todavia, seria imperioso, igualmente, refletir sobre o sentido real de uma suspensão temporária dos conflitos, para celebrar a Páscoa, com sua retomada logo em seguida. Considerar esse tipo de trégua como uma demonstração de elevação espiritual dos seres humanos, em especial dos dirigentes que são os responsáveis pelos massacres em Kosovo e pelos bombardeios sobre a Iugoslávia, é uma mentira.
Razão tinha, sem dúvida, Mahatma Gandhi, o grande líder indiano que enfrentou o Império Britânico com sua doutrina de resistência pacífica, quando disse que se os que se dizem cristãos (referindo-se principalmente aos governantes da toda poderosa, à época, Grã-Bretanha) praticassem os ensinamentos de Jesus, os problemas do mundo estariam resolvidos. O que ele queria dizer é que os cristãos britânicos agiam em relação aos indianos e a todos os povos que subjugavam sem qualquer senso de piedade ou fraternidade. São cristãos os dirigentes dos Estados Unidos, da quase totalidade dos países da Otan, até mesmo da Iugoslávia. Assim também, é bom lembrar, eram (ou assim se consideravam) cristãos os nazistas e os fascistas que levaram o mundo à carnificina da II Guerra Mundial. Em meio a todas as atrocidades que aconteceram naquele conflito, possivelmente os únicos que não foram hipócritas eram os comunistas soviéticos, declaradamente ateus.
Suspender os bombardeios por parte da Otan e as atrocidades cometidas pelas forças sérvias contra os kosovares, para celebrar a Páscoa, parece uma idéia absurda, até. Não há união plausível entre as lições que emanam do Calvário, há 2 mil anos, que se completaram depois com a Ressurreição de Cristo, e uma trégua de uma semana. Jesus, seguramente, não morreu na cruz para que os homens, que se dizem seus adeptos, parassem de se matar uns aos outros no período em que se rememora seu martírio, recomeçando tudo depois, sentindo-se talvez justificados por um discutível ato de fé. O que a Semana Santa e a Páscoa deveriam lembrar aos homens era precisamente o oposto do que se está fazendo na Iugoslávia e em tantos outros pontos deste vasto mundo. Um mundo que tem maioria absoluta de crentes - cristãos ou não. E que, em nome de Deus, seguem praticando as maiores atrocidades possíveis. Uma trégua de Páscoa não resolve isso.





