Editorial - Trânsito assassino
Segundo dados históricos, o regime nazista da Alemanha matou 20 milhões de pessoas; levantamentos idênticos relativos ao período em que Josef Stalin dominou a União Soviética indicam que 50 milhões de pessoas foram mortas. E, conforme estudos feitos pela Federação Internacional da Cruz Vermelha, o trânsito matou, neste século, 30 milhões de pessoas. Uma tragédia superior à nazista e que ultrapassa a metade dos crimes cometidos pelo regime comunista de Stalin. Estes números, verdadeiramente impressionantes, mostram uma realidade que o ser humano teima em desconhecer que é o fato de que a era do automóvel, que deveria representar um fato positivo na vida da humanidade, se converteu em mais um inconcebível banho de sangue.
Mais grave ainda que isto, que afinal, conforme alguns (pouco afeitos à concepção segundo a qual é preciso conhecer a História para não repetir seus erros) é coisa do passado, é a projeção da Cruz Vermelha de que os acidentes com vítimas serão a terceira causa de morte no mundo, no ano 2020. Conforme o estudo, o trânsito vai matar mais gente, no próximo século, que a tuberculose e a tão temida Aids. E uma informação que interessa diretamente aos brasileiros: a maior proporção dos casos será registrada nos países em desenvolvimento, que representarão 70% do total.
O relatório indica que esses acidentes custam aos países em desenvolvimento quase o mesmo que recebem de ajuda dos países desenvolvidos. O crescimento constante dos índices representa para os países do Terceiro Mundo um custo anual aproximado de 53 bilhões de dólares. No Brasil, foram registradas cerca de 28 mil mortes no trânsito, em 1997. Segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), 17 em cada grupo de 100 mil habitantes morrem atropelados por ano em São Paulo, enquanto em Nova York o mesmo índice cai para 3,9. Só estes números deixam evidente que existem sérios (e infelizmente ainda não devidamente avaliados) problemas no trânsito brasileiro, com todas as consequências disto decorrentes.
Os dantescos números sobre o total de vítimas do trânsito, no século em que estamos vivendo, precisam, no mínimo, despertar a consciência do ser humano sobre a sua própria irresponsabilidade diante de máquinas que deveriam estar a seu serviço. Por outro lado, as projeções não precisam (e, em verdade, nem devem) acontecer. A futurologia não é uma ciência exata. Depende de muitos fatores, o principal deles, certamente, deve ser a vontade consciente do único animal que se diz pensante a ocupar a Terra. Estas previsões devem provocar uma reação global para que não se aceite passivamente este tipo de desgraça. E não apenas por causa dos fatores econômicos colocados mas, principalmente, devido ao aspecto humano envolvido na questão. De qualquer modo, porém, o que é importante é que diante destes números haja uma firme colocação coletiva visando contestar a futurologia, em uma atitude que pode até ser considerada de legítima defesa face a uma imensa ameaça.
O novo Código Nacional de Trânsito, que entrou em vigor este ano, representou uma nova tentativa do Brasil para mudar o quadro e frustrar este tipo de projeções. E, no início da vigência do código, o comportamento dos motoristas, e da sociedade em geral, induzia a se acreditar que a irresponsabilidade e outras perversidades do trânsito seriam, enfim, erradicadas. Infelizmente, porém, poucos meses depois de ser posto em prática, o novo documento legal parece praticamente igual ao antigo e o quadro de morte e dor nas ruas e estradas, por todo o país, continua quase inalterado. Este é, porém, o desafio a ser vencido. O Brasil não pode aceitar passivamente a situação e deve lutar, com toda a sua capacidade, para modificá-la.





