Transgênicos em debate
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Jacques Diouf, planeja realizar um debate internacional sobre os organismos geneticamente modificados (OGM), também chamados de transgênicos, que para ele representam uma grande esperança, mas também um risco para o meio ambiente e para a saúde. Diouf assinalou entender que para se saber como aplicar o princípio da precaução, é necessário um debate internacional sobre os OGM, que, conforme lembrou, representam também um problema de civilização e de sociedade. No contexto desta intenção, a FAO vai organizar, até o mês de junho, um Comitê internacional de ética em matéria de agricultura, sendo que as conclusões do debate deverão ser incorporadas pelo ‘Codex Alimentarius’, o conjunto de normas internacionais sobre a qualidade e a inocuidade dos alimentos elaborado conjuntamente pela FAO e a Organização Mundial de Saúde (OMS). A intenção do diretor-geral da entidade é a de incluir no referido Comitê filósofos e representantes das religiões, o que daria maior dimensão à análise da questão.
Embora no Brasil a questão esteja ainda em fase embrionária, a produção usando os chamados organismos geneticamente modificados está bastante avançada em muitos países, entre os quais os Estados Unidos e até a vizinha Argentina. E este avanço tem produzido preocupações intensas, havendo inclusive algumas nações que proibiram a importação dos transgênicos, por uma série de razões que envolvem considerações técnicas e éticas. Afinal, este tipo de produto deriva de uma ação na genética dos produtos. É o homem modificando aquilo que existe na natureza, o que traz junto preocupação de caráter ético e religioso, motivo da convocação de filósofos e religiosos para o debate.
No momento em que a população mundial chega aos 6 bilhões de habitantes, havendo concretas projeções que indicam que este total vai chegar a 8 bilhões em 20 anos, o uso dos transgênicos, como lembra Diouf, pode representar, com todas as cautelas devidas, uma oportunidade de combater a fome que ainda atinge 790 milhões de pessoas no mundo. A luta contra a fome, tarefa para a qual a FA0 foi criada em 1945, continua exigindo grande esforço mundial. Independente do uso dos transgênicos, o diretor-geral do organismo se mostra otimista, considerando projeções de redução, até 2015, do número de pessoas que vivem abaixo do nível de segurança alimentar.
No ‘combate político’ e na ‘batalha da opinião pública’ que trava contra a indiferença em relação ao problema da fome, Diouf aposta principalmente na cooperação entre os países de todo o mundo. E não descarta a necessidade do aprofundamento sobre os transgênicos que podem, no seu entender, representar uma alternativa efetiva diante da magnitude da questão. Trata-se, em realidade, de ir mais fundo no assunto, que interessa de modo direto a todos os habitantes do planeta, observando as vantagens e desvantagens. Especialistas no assunto consideram os produtos uma verdadeira incógnita. Percebem as vantagens, temem as desvantagens. Todavia, enfatizam que os transgênicos prescindem do uso de veneno na agricultura. Como não se tem certeza se tais produtos são bons ou ruins, mas como existe a convicção de que o uso de venenos na lavoura é altamente pernicioso, tem-se que esta técnica parte, pelo menos, com uma certa vantagem. E merece ser mais aprofundada, até porque a questão da fome é vital e uma solução que represente garantia de alimentação aos habitantes do mundo não pode ser descartada sem que se analise o assunto de modo pleno, como quer o diretor-geral da FAO.