Editorial - Tragédias que poderiam ser evitadas
Tragédias que poderiam ser evitadas
Chuvas intensas, provocando inundações e mortes em várias regiões do País; dois acidentes rodoviários, em Santa Catarina, envolvendo ônibus de turismo e que deixaram quase meia centena de mortos. O ano que está começando, e que era aguardado com muita esperança, acaba se revelando igual aos anteriores, registrando idênticas e trágicas notícias, numa repetição que acaba remetendo à idéia de fatalidade. Para muitos, são fatos absolutamente impossíveis de se evitar especialmente os ligados a fenômenos naturais e que apenas provocam lamentações. Em pouco tempo, são esquecidos ou substituídos por novas tragédias, quase todas devidamente rotuladas como fatalidades.
Todavia, a repetição destas ocorrências tanto as inundações que se registram sistematicamente a cada começo de ano, quanto os acidentes que se multiplicam nas estradas deveria ter alertado há muito sobre as falhas e abusos do próprio homem, que se torna verdadeiro cúmplice de muitos destes chamados acidentes. Sabe-se que há chuvas excessivas e muito fortes nesta época do ano, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. E estas chuvas provocam inundações, arrastam pessoas, desabrigam, destroem bens que foram adquiridos com muito sacrifício. Não há como evitar as tempestades, é certo, mas uma ponderável parte das tragédias que acompanham estas ocorrências é consequência da falta de cuidado do homem, da falta de obras preventivas.
Um exemplo típico a evidenciar como o ser humano pode mudar esta situação é o Japão, país sujeito a terremotos. Mesmo os mais fortes abalos sísmicos não derrubam construções edificadas com os devidos cuidados, feitas justamente segundo normas que reduzem o risco. Já na Turquia, terremoto ocorrido no ano passado deixou milhares de mortos porque aconteceu em área em que houve exploração abusiva, construções indevidas, falta de cuidado e de responsabilidade. Efetivamente, apesar de todo o desenvolvimento do homem, não é ainda possível evitar terremotos ou temporais. Entretanto, é fora de dúvida que o engenho humano é capaz de reduzir os efeitos de tais tragédias.
Idêntico raciocínio cabe diante de tragédias como as que ocorreram, em dias seguidos, na rodovia catarinense. É uma reação fácil, normal até, considerar que ocorrências como aquelas decorrem de falta de cuidado do motorista ou de defeitos nos veículos. Sem dúvida, são duas causas comuns de acidentes, mas que devem ser ligadas a uma terceira: a situação das estradas, quase sempre em péssimas condições de conservação, muitas apresentando defeitos estruturais de engenharia. Normalmente, após diligentes investigações, culpam-se motoristas e tudo fica no mesmo. O que falta é maior conscientização sobre a responsabilidade de muitos envolvendo os que constroem estradas, os que deveriam conservá-las, aqueles que fazem parte do esquema de segurança e vigilância , determinando-se a partir daí uma ação coletiva de nacionalidade exigindo medidas concretas para modificar esta rotina de tragédias.
A grande mudança ocorrida no Brasil dos últimos anos foi, precisamente, provocada pelo despertar do senso de cidadania, com a cobrança dos direitos de vida individuais e coletivos. O que se necessita é que este senso se amplie para que se exijam medidas efetivas das chamadas autoridades para evitar a repetição, a cada ano, de tragédias que poderiam ser, ao menos, minimizadas em seus efeitos.





