Editorial - Tragédia que se repete
Editorial
Tragédia que se repete
Quando a 2ª Guerra Mundial terminou, há mais de 50 anos, e o mundo tomou conhecimento das atrocidades cometidas, principalmente pelos nazistas, houve uma reação de espanto e pavor. Nunca, nem mesmo nos mais dramáticos episódios da história humana, tinham sido vistas tais coisas. Não por outro motivo, pela primeira vez também foi estabelecido um tribunal para julgar, como criminosos, os responsáveis pelos atos desumanos dos nazistas. A idéia foi apoiada pela consciência mundial porque os crimes cometidos, o estabelecimento de um programa sistemático de destruição de judeus, ciganos e deficientes, os tremendos abusos contra a dignidade humana, em nome de uma superioridade racial inaceitável, durante o período de domínio nazista atingiram um patamar que não poderia ser aceito pela civilização humana. E ao lado desse sentimento de revolta também se estabeleceu outro, o de que acontecimentos como aqueles jamais poderiam se repetir.
Pouco mais de 50 anos passados, quando o mundo se encontra às vésperas do terceiro milênio e os homens insistem em acreditar que estão superando o estágio animal, atingindo níveis de evolução jamais vistos, certos acontecimentos fazem rememorar alguns dos mais bárbaros fatos ocorridos ao longo da citada guerra. De um lado, a Otan, liderada pelos norte-americanos, bombardeando a Iugoslávia, em atitude quase similar à dos aviões nazistas atacando a Grã-Bretanha; de outro, os iugoslavos perseguindo os albaneses de Kosovo, realizando uma limpeza étnica, pouco diferente da ação das SS em busca de judeus, ciganos e outros inimigos da raça superior. Os trens carregados de milhares de pessoas, levadas como gado para o matadouro, lembram em muito os comboios em que as pessoas eram conduzidas para os fornos crematórios nazistas. E uns e outros acusam os adversários de atitudes nazistas.
O número de kosovares deslocados se aproxima aos poucos de um milhão, informou ontem o porta-voz da Otan, Jamie Shea, adiantando que só no domingo 44 mil habitantes abandonaram a região. Aproximadamente 360 mil deixaram Kosovo nas últimas duas semanas, disse Shea. O número total de pessoas deslocadas de suas casas em Kosovo se situa agora em 831.000, conforme o porta-voz. Quando se rememora que os nazistas levaram mais de cinco anos para matar seis milhões de judeus, tem-se que a tragédia que agora se vislumbra pode ser pior: quase um milhão de refugiados em pouco mais de 15 dias de bombardeios!
A situação provocou reação de alguns governos, inclusive com o anúncio de que países europeus pretendem receber 100 mil refugiados, rapidamente. É pouco, diante do quadro geral. E não é a solução. Na verdade, como observam alguns especialistas, esta atitude vai acabar propiciando exatamente a saída que o governo iugoslavo quer, quando desloca à força os habitantes de Kosovo. Trata-se de uma atitude paliativa, como também o é a das entidades humanitárias de socorro. Importante, sem dúvida, necessária diante da tragédia humana que se desenrola naquele ponto do planeta. Mas não representa uma abordagem concreta diante do desafio de se evitar que continuem a se repetir no mundo crimes como os que foram cometidos pelos nazistas e fascistas nos anos da 2ª Guerra Mundial.
O erro inicial, sem dúvida, foi o início dos bombardeios contra a Iugoslávia. Não funcionou no tempo de Hitler, quando investiu contra a Grã-Bretanha; também não deu certo contra os iraquianos. É o tipo de ação que apenas provoca mais destruição e desespero. O correto seria um esforço para que as partes envolvidas buscassem soluções pacíficas, o único meio de o homem mostrar que mudou um pouco desde 1945.





