Editorial - Trabalho infantil
Trabalho infantil
Cerca de 20 milhões de menores entre os 5 e os 15 anos trabalham em condições de risco e exploração na América Latina, 3,5 milhões deles na América Central, asseguraram durante um encontro em San José, na Costa Rica, técnicos da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Da América Latina, Brasil e Peru são os países que têm os problemas mais graves em exploração do trabalho de menores, registrando boa parte dos 20 milhões, sem contar os que são explorados sexualmente, informou à imprensa internacional a espanhola Carmen Moreno, funcionária da OIT. Coordenadora sub-regional do Programa Internacional para a Erradicação do Trabalho Infantil da OIT (Ipec), ela precisou que na América Central o problema maior é na Guatemala, seguido pela Nicarágua, Honduras e El Salvador, e menor na Costa Rica e Panamá. A OIT calcula que apenas 10% das crianças trabalhadoras se situam no mercado formal da economia.
A divulgação destes números pode dar a impressão de que o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, estava com razão no pronunciamento que fez durante a fracassada reunião da Organização Mundial do Comércio e em que criticou o Brasil, afirmando que a indústria calçadista usava trabalho infantil. Ocorre que embora não se possa contestar os números da OIT sobre a exploração do trabalho infantil no Brasil, é certo que esta situação está ligada a muitos outros setores. Ademais, parece bem clara a intenção do presidente norte-americano, muito mais preocupado com a concorrência que a indústria calçadista faz nos Estados Unidos do que com os aspectos humanitários da exploração do trabalho infantil.
Quando se sabe que as palavras de Clinton podem custar bilhões de dólares para a indústria calçadista brasileira, conforme declarações do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, é possível entender a hipocrisia implícita em todo o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos. Importa pouco o problema real, a exploração dos menores, o drama efetivo de 20 milhões de crianças que são submetidas a pressões desumanas, interessando mais a discussão comercial e o interesse de determinado setor. Com isto, ao invés de contribuir de modo efetivo para que se enfrente o problema, conturba-se mais o clima, o que, no fim, atende ao jogo dos que laboram apenas em função de seus interesses. É o próprio retrato da guerra que se vive no comércio mundial.
Por outro lado, a percepção de toda esta falsidade leva de novo à conclusão de que cada país deve enfrentar seus próprios problemas e buscar soluções que estejam de acordo com sua realidade e, principalmente, com a preocupação de garantir a suas populações os níveis mínimos de dignidade humana. A constatação de que, apesar dos esforços, persiste a exploração do trabalho infantil implica na necessidade de se formular novas diretrizes a fim de mudar esta realidade. Trata-se basicamente de uma questão que envolve as obrigações do Brasil com seus filhos e da necessidade de se adotar políticas concretas visando mudar um quadro social que permite este tipo de exploração.
O que há por trás deste número, e mais ainda das vidas que cada um deles representa, é a imensa dívida que este rico Brasil tem para com seu povo pobre, com seus milhões de miseráveis. Esta é a realidade, o desafio, independente das falas melosas de quem quer que seja, e que precisa ser enfrentado. Acabar com a exploração desumana do trabalho infantil não é um imperativo econômico, mas a obrigação efetiva de um governo que deveria ter como principal responsabilidade a vida e o bem-estar de seu povo.





