Editorial Todo apoio à agricultura Com 90 milhões de hectares para exploração agrícola, o que representaria a possibilidade de produzir 290 milhões de toneladas de grãos, o Brasil continua a viver aquela sua lamentável realidade: produz de modo insuficiente e ainda continua dependente da importação para atender às necessidades de alimentação de seus habitantes – tema que foi alvo de manchete de primeira página desta Folha. O Brasil está importando, entre outros produtos, arroz, milho e trigo (deste último é o maior importador do mundo), o que implica em um dispêndio de US$ 1,5 bilhão ao ano, conforme o levantamento de empresas importadoras. No momento em que a alta nos preços internacionais do petróleo indica um aumento nos gastos para a importação do produto e com a necessidade real de manter ainda importantes compras no exterior, o Brasil precisaria não apenas ver crescer sua balança de exportações, mas também economizar em aquisições que seriam desnecessárias caso houvesse uma política agrícola correta e consistente no país. Dados da Confederação Nacional da Agricultura indicam que a agricultura brasileira reduziu em 13% a área plantada em grãos, em pouco mais de 10 anos. É um verdadeiro absurdo constatar que com todo o seu potencial o Brasil ainda continua a ser importador de alimentos. É uma realidade que persiste principalmente pela falta de uma adequada visão por parte dos governantes, que insistem em agir de modo incoerente em face da grande vocação brasileira. Se, conforme os dados da CNA, a área plantada no país decresceu, se a produção de grãos não sobe do modo necessário, isto decorre precisamente da falta de um apoio consistente e contínuo ao campo. O total dos produtores que tem acesso ao crédito oficial do governo é de apenas 20%. Os produtores também não encontram apoio para desenvolver melhor tecnologia para o uso de máquinas, o que impede que tirem melhor proveito da produção existente. Só em relação à soja, as perdas na colheita representam um prejuízo de R$ 500 milhões. Para qualquer país, seria uma perda imensa; para o Brasil, ainda tão carente, é um crime, para dizer o mínimo. Há 500 anos, ao ver a terra pela primeira vez, o escrivão Pero Vaz Caminha, na famosa carta ao rei de Portugal, já antecipava que a terra por aqui era fértil e garantia que ‘‘em se plantando, tudo dᒒ. Hoje, quando o Brasil celebra o quinto século da descoberta, ainda não se deu a suficiente importância à terra, não se plantou sequer o suficiente para garantir que os brasileiros possam, ao menos, comer. Foram 5 séculos em que o Brasil fugiu à sua vocação e, por isto, entre outras coisas, continuou a ser apenas o país de um futuro que não chega nunca. Ao invés de conquistar efetivamente a terra, o que se observa é uma redução na área plantada, um aumento na necessidade de importação. Tudo por falta de definições claras dos governantes, consequência de uma criminosa opção que persiste em desconhecer o potencial real do país. O Brasil não precisa (e, em verdade, nem tem condições, no momento) explorar todos os 90 milhões de hectares que tem disponíveis, conforme o levantamento da CNA. Só o que precisa é de um aumento consistente na área agrícola e na produção. Um projeto simples destinado a garantir a produção suficiente para evitar importação de alimentos seria adequado à situação atual. Os efeitos desta atitude seriam importantes e abririam caminho para a continuidade que, em pouco tempo, modificaria a realidade social do país. Afinal, não se pode esquecer que uma política de apoio à agricultura representa não só mais alimentos, mas também mais empregos e melhor condição de vida para os brasileiros. É um modo simples de resolver os problemas nacionais, que dependem apenas da vontade política dos governantes.

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