Quase que ao mesmo tempo em que se confirmava que, outra vez, e de novo em nome da contenção de gastos, o funcionalismo público federal vai ficar sem qualquer reajuste salarial, os chefes do Executivo, Legislativo e Judiciário se reuniam para tratar do valor do teto salarial para a categoria. Estabelecer este teto faz parte do projeto relativo às reformas previdenciária e administrativa e deveria acontecer através de uma definição simples e rápida. Todavia, e como infelizmente seria de prever, não é isto o que se está observando. A reunião realizada esta semana terminou sem qualquer tipo de acordo. Ao contrário, vazaram informações relativas à intenção de se estabelecer um teto muito mais elevado que o atual salário do presidente (que ganha pouco mais de 8 mil reais por mês).
O projeto visa, entre tantas coisas, acabar com os marajás, com muitos que através dos mais diferentes truques legais conseguiram garantir para si e para seus pares vencimentos verdadeiramente absurdos, somando aposentadorias, cargos públicos e as mais inacreditáveis vantagens. Apesar de se ter, na base da pirâmide brasileira, uma imensa maioria que ganha o salário mínimo, assim como também é enorme o percentual dos aposentados que recebem também aquela ínfima quantia após 35 anos de trabalho, existe uma casta de privilegiados que ganha muito na ativa e mais ainda na inatividade. E é esta distorção que provoca os maiores problemas, inclusive o enorme buraco da Previdência ou o déficit público que parece não ter remédio.
Nada disto, porém, sensibiliza os que conseguiram privilégios que são negados à maioria e que, evidenciando até uma falta de espírito público, insistem em manter vantagens pessoais ou corporativas, apesar de todas as dificuldades que o país enfrenta. Sacrifício é, ao que se percebe, uma palavra que só existe no dicionário para ser lançada sobre o povo. Os marajás da aposentadoria, os beneficiários dos mais incríveis ardis legislativos que acabam recebendo, em um mês, o que a maioria não vê durante a vida toda, persistem na defesa de seus privilégios, sem levar em conta as agruras da maioria dos brasileiros.
Ora, o estabelecimento do teto do pagamento ao funcionalismo público não é uma questão difícil de estabelecer. É só levar em conta o valor do mínimo que se paga a quem trabalha e garantir um máximo que valha 100 vezes aquele salário. No caso brasileiro, como o mínimo anda pela casa dos 130 reais, o máximo deveria ficar em 13 mil reais. E este valor deve levar em conta também todas as vantagens. Aliás, em uma democracia, privilégios nem deveriam existir. Como, porém, os espertos continuam a proliferar e há que, em nome da legalidade, levar em conta o chamado direito adquirido, que estas regalias tenham pelo menos um limite.
Não faltam os que ponderam que esta limitação pode prejudicar o governo porque a iniciativa privada paga melhor aos grandes executivos. Ocorre que estes enormes salários são justificados por um trabalho competente. E quem paga não é o povo. Somos um país pobre e não há justificativa para as imensas diferenças que existem entre a maioria do povo que trabalha e alguns poucos desavergonhados que se locupletam e assaltam, ainda que de modo legal, os cofres públicos.
Se o governo estabelecer um teto imoral, para proteger e defender os privilégios já estabelecidos, vai perder a credibilidade de um povo que está cansado de ser espoliado. Os dirigentes dos três Poderes, incluindo o Judiciário que não é eleito, precisam ter um pouco de sensibilidade em relação às dificuldades enfrentadas pelo povo, ainda mais quando pedem mais sacrifícios a todos.

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