Editorial - Terrorismo de Estado
O terrorismo representa a mais abominável forma de ação já criada pelo homem em qualquer tempo. Na verdade, constitui o tipo de agressão produzida por mentes criminosas e anti-sociais, que dizem atuar politicamente, quando na verdade apenas usam meios ilícitos em alta escala para atingir seus objetivos. Para o mundo civilizado, é uma agressão inaceitável, que põe em risco os próprios padrões de uma sociedade organizada. Uma prática que se tornou cada vez mais comum pela metade deste século, o terror apavora mais até do que o crime organizado porque é mais desumano, não obedece a nenhum limite e põe a todos em perigo. A tese terrorista segundo a qual não existem inocentes, abarca tudo e justifica a colocação de bombas em escolas, estações de trem, lojas, ou qualquer outro tipo de atitude. Importa pouco quantos e quem são os mortos, para o terror o que vale é apenas uma coisa: destruir sem qualquer problema de consciência ou ética.
O desafio da sociedade quando defronta com isto é dos mais complicados. Trata-se de enfrentar grupos sem qualquer freio, com as armas civilizadas da lei, que norteiam a vida dos povos. Se, como tem sido enfatizado várias vezes, o crime organizado é um problema sério para os organismos policiais em todo o mundo, o terror, uma forma criminosa de fazer política, constitui uma dificuldade ainda maior. Entretanto, por mais abomináveis que sejam as atitudes dos que usam o terror como meio de ação, é certo que não se pode aceitar, sob pena de se ver em perigo as próprias instituições sociais, que, sob a justificativa de combate ou represália, sejam adotadas medidas similares às dos criminosos que usam este tipo de ação. E foi exatamente isto o que fizeram os Estados Unidos esta semana, quando determinaram bombardeios contra dois países, Sudão e Afeganistão, em resposta à destruição de embaixadas norte-americanas na África.
O chamado terrorismo de Estado, isto é, a ação abusiva de um governo que lança bombas sobre outros países, qualquer que seja a aparente justificativa, é inegavelmente mais inconcebível que o outro tipo. No momento em que um Estado organizado resolve adotar atitudes iguais às das bestas feras que usam o terror como arma, então as esperanças reais de que seja possível ao mundo viver sob o domínio da lei e da civilização se tornam muito tênues. Pior é a percepção de que este tipo de resposta dá a impressão de que falharam todos os outros meios de fazer justiça.
Na verdade, não tem sido fácil implantar a justiça neste mundo conturbado. Isto ocorre, inclusive, porque há países que atuam de modo marginal, que descumprem acordos internacionais, que agridem os vizinhos, que acoitam o terror. Todavia, o mundo tem hoje meios legais para enfrentar este grave problema: os organismos internacionais marginalizaram algumas destas nações e se esta atitude não produziu ainda os efeitos esperados, que seriam principalmente o do restabelecimento do respeito à lei mundial pelos marginais como a Líbia, é porque as sanções não têm sido levadas a sério por todos os envolvidos. Um excepcional exemplo de que as sanções funcionam, quando aplicadas por todos, é dado pela mudança política ocorrida na África do Sul. O fim do apartheid decorreu, principalmente, da reação mundial ao inaceitável separatismo étnico.
Os Estados Unidos, porém, resolveram que esta forma não era suficiente. E se converteram, de novo, em terroristas institucionais, numa prática que é um flagrante desrespeito às normas que regem as relações entre os povos. O mais grave é que esta atitude apenas exacerba a situação e abre caminho para que o terror se torne cada vez mais presente no mundo.





