EDITORIAL - Temor do que é oficial
A maioria das notícias que geram a revolta do povo, no Brasil, sempre tem a ver com desmandos das administrações públicas, corrupção, abusos de autoridade dos governantes, falta de decoro dos políticos, violência da polícia, enfim com tudo o que se relaciona com a comunidade oficial. No conceito da sociedade, se há governo, aí reside uma forma de mal, contra o qual ela deve se prevenir e se proteger.
O fato que frequenta os veículos de comunicação, por estes dias, é a denúncia envolvendo contas da campanha eleitoral do prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi. Depois do que aconteceu com os prefeitos das outras duas mais importantes cidades do Estado - Londrina e Maringá - também o da Capital viria a causar decepção ao eleitorado e aos cidadãos em geral.
Enquanto isso, nos jornais de domingo leu-se que os nove deputados federais cassados, ou que renunciaram aos cargos, por denúncia de corrupção, continuam recebendo normalmente as aposentadorias de parlamentares. Nas mesmas edições anunciou-se que os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, depois de haverem deixado o Senado pela porta dos fundos, envolvidos em escândalos de mentiras e corrupção, já se preparam para o retorno à ribalta política, como candidatos aos governos de seus Estados, eis que o favorecimento da legislação (criada por eles próprios) lhes permite tais regalias.
Em Londrina, a polícia fez justiça com as próprias mãos, com um menor infrator, matando-o com seus tiros quando o rapaz saía da casa da namorada, tudo demonstrando que os policiais já o aguardavam, embora aleguem que ele portava uma arma e que disparou primeiro. A necessidade de descarregar tantos tiros mostra um lado insano desses policiais. Se a sociedade teme os delinquentes, também se amedronta diante da polícia, ao invés de sentir-se segura com ela.
As notícias boas, que também ocupam bons espaços na mídia, raramente têm a ver com alguma ação governamental. Elas emanam do meio social, felizmente um poder que se mantém em pé e sobrevive, apesar dos governos. A comunidade cidadã é que segura a barra e não permite que a nação se afunde, enquanto a área oficial, que tem funcionado mais como algoz, atravanca o desenvolvimento, arrocha nos impostos, mantém cativa a moeda pelo garrote dos juros altos, e com isso o País se empobrece e os bancos ficam cada vez mais poderosos.
É uma afronta ver os bancos anunciarem, a cada trimestre, os seus gordos lucros, sem o menor pudor, sabendo-se que esses ganhos formidáveis ocorrem por especulação, num país em dificuldades, e não por competência gerencial. Leis abusivas, como a trabalhista, inibem o emprego e mantêm sob temor a classe empresarial, que é a que emprega e garante a sociedade. Ao lado de uma nação operosa, voltada para o trabalho e para a produção, paira a sombra sinistra dos governos e de seus tentáculos.
Infelizmente, em nosso país, a estrutura governamental deveria existir para proteção dos cidadãos, mas ocorre exatamente o contrário: a sociedade a teme. E não sem razão, porque o que se tem de muito presente, na esfera oficial, é corrupção, abuso de poder, burocracia impeditiva, políticas antidesenvolvimentistas e desrespeito aos cidadãos. Longe de imaginar que possa ser democrático um regime dessa natureza.





