Editorial - Superávit e trabalho
Superávit e trabalho
O secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, Roberto Giannetti da Fonseca, assegurou, ao tomar posse no cargo, que o superávit comercial brasileiro será de 5 bilhões de dólares este ano e de 10 bilhões de dólares em 2002. Fonseca prometeu criar mecanismos de apoio às empresas exportadoras, cujos recursos viriam de fundos de investimentos e de pensão coordenados pelo BNDES. Observando, porém, que tais propostas não têm data certa para entrar em vigor, enfatizou que solucionarão um problema crônico do País: a falta de recursos para financiar as exportações. Em última instância, o secretário-executivo da Câmara acredita que o aumento do superávit comercial trará um bom resultado para as contas públicas do País. Vale lembrar que em fevereiro, a balança comercial brasileira registrou um superávit de 78 milhões de dólares, quantia interpretada por Giannetti como o início da recuperação das exportações, cuja previsão de crescimento para este ano oscila entre 15% e 20%. Em 1999, o déficit comercial brasileiro foi de 1,196 bilhão de dólares.
O mais importante nisto, contudo, não é a questão das contas públicas, mas o reflexo real que tal resultado poderá ter na vida dos brasileiros. Obter melhores resultados na exportação não representa, apenas, a conquista de mais recursos para a balança comercial. Constitui fator fundamental de crescimento econômico, na medida em que estimula o aumento da produção, o que é fundamental para o processo de desenvolvimento interno, com base na melhoria das condições de vida do cidadão. Este, sem dúvida, deveria constituir o foco principal das preocupações de quantos estão envolvidos nas responsabilidades de modificar o atual quadro ainda instável da própria economia brasileira.
O Brasil se encontra numa encruzilhada vital para o seu desenvolvimento. Uma vez que se possa considerar, sem ufanismo, superada a tremenda batalha que se travou para conter a espiral inflacionária, não há como fugir à necessidade de se lançar agora a nova e inadiável fase de retomada do crescimento, até porque já se percebeu que esta caminhada é possível sem produzir efeitos colaterais indesejáveis. Quer dizer, atualmente, são excepcionais as condições para restabelecer o processo de crescimento, oferecendo-se à população condições efetivas para participar desta fase. A necessidade de se produzir superávits na balança de pagamentos é indiscutível. E o modo para se atingir este resultado é pelo estabelecimento de condições para aumentar a produção, o que significa a criação de mais empregos, uma necessidade de ampla faixa da população.
Os anunciados investimentos coordenados pelo BNDES às empresas exportadoras constituem, sem dúvida, elemento de importância para se atingir as tão ambiciosas metas superavitárias. Representam, porém, apenas parte do problema. Afinal, o que não se pode esquecer é que só será possível conquistar resultado de tal modo importante através do aumento da produção, em todos os setores. Trata-se de produzir excedentes exportáveis e, ainda mais, de fazê-lo com preços competitivos. De um como de outro modo, o que é tão importante quanto o investimento para as empresas voltadas à exportação é um esforço direcionado à criação de empregos e à valorização do trabalho existente. Trata-se de um desafio sério, que não pode ser assumido apenas pela Câmara de Comércio Exterior, devendo merecer também a atenção e a disposição dos setores do Governo ligados ao trabalho. Com uma adequada política voltada à criação de empregos, o que implica em profundas reformas na legislação trabalhista, será possível transformar em realidade esta previsão.





