Editorial - SOS Dekassegui
Antes mesmo da Descoberta, o Brasil (que, naturalmente, nem nome tinha) já era um abrigo para os desamparados ou perseguidos. Afinal, a própria História fala de João Ramalho, o português que já estava no Brasil quando os colonizadores chegaram. A partir de abril de 1500, a vinda de gente de outras partes do mundo se tornou natural. Primeiro, claro, os portugueses, depois os espanhóis. Mas houve também outros, de quase todos os continentes.
Todavia, só no final do século passado é que começou uma política real de imigração, com o Brasil abrindo as portas para multidões de desamparados da Europa e Ásia que começaram a vir, trazendo para cá não - como nos primeiros anos de colonização - o sonho da fortuna rápida e do retorno, mas o desejo de encontrar uma nova terra, de estabelecer-se em um novo mundo, de fincar raízes neste país-continente. E o trabalho que realizaram deu frutos, tornaram-se brasileiros como os que aqui nasceram, plantaram, colheram, tiveram filhos, são hoje membros ativos da coletividade, participam da vida, ocupam, através principalmente de seus descendentes, postos de governo, estão por toda parte como membros efetivos e ativos desta sociedade.
Ocorre que o Brasil passou a viver imensas dificuldades nos últimos tempos. E o fluxo mudou. Ao invés de estrangeiros vindos para cá, buscando oportunidades, brasileiros começaram a procurar melhor sorte em outros países. Foram para os Estados Unidos, o Canadá, a Europa, principalmente. Mas entre os descendentes dos japoneses, até devido às semelhanças físicas, uma opção que parecia lógica era ir para o Japão. Ali havia oportunidades, possibilidades, esperança - o que, em certo momento, parecia ter acabado no Brasil. Foram milhares fazendo o caminho inverso do trilhado por seus ancestrais, buscando lá o que não encontravam mais aqui. Todavia, não iam, nem os que buscavam o Japão, nem os que foram para outros pontos do mundo, para ficar. São brasileiros, mantiveram as raízes. O sonho era ir, conseguir recursos e voltar em melhor situação, objetivo efetivamente alcançado por grande número de dekasseguis nos últimos anos.
Mas os ventos tenebrosos que sopraram por aqui também chegaram à Ásia. E do mesmo modo que o milagre brasileiro dos anos 70 se esboroou, igualmente o sonho japonês está se convertendo em dificuldades para alguns milhares de dekasseguis, devido à crise econômica que aquele país atravessa. O índice de desemprego no Japão bateu em 4,3%, o maior dos últimos 50 anos, levando o governo a anunciar medidas duras nos próximos dois anos para tentar reverter o quadro. Os brasileiros que lá estão assistem à redução nas chances de contratação, os ganhos são menores com o fim das horas extras, o atendimento na área de saúde é dificultado (em muitos casos, só pagando), e há casos de gente morando em situação extremamente precária. É importante, porém, perceber que os dekasseguis não estão sós. Assim como os países que enviaram imigrantes a toda a América, nos séculos precedentes, se preocupam com eles até agora (alguns até mantendo uma união, como a da dupla nacionalidade outorgada aos descendentes dos seus imigrantes), da mesma forma o Brasil se preocupa com seus filhos que estão por toda parte. E as dificuldades atuais dos dekasseguis não são, apenas, problema pessoal ou familiar, mas envolvem a todos. E não por acaso o tema ganha prioridade na esfera federal, com a convocação pelo Itamarati de uma reunião para este dia 4, em Brasília, na qual a situação deles será debatida com entidades que os representam.
Está se estabelecendo uma união importante destinada a amparar de todos os modos possíveis os brasileiros que hoje enfrentam dificuldades maiores no Japão. A Folha de Londrina/Folha do Paraná se une a este trabalho, com a campanha SOS Dekassegui, destinada a apoiar as entidades envolvidas na questão. Dar-lhes apoio nesta hora é fundamental. Mobilizar todos os esforços no sentido de mostrar-lhes que não estão sós, é vital. Todavia, este é só o primeiro passo. É preciso resgatá-los, caso queiram voltar - como já vem ocorrendo -, ampliar o debate sobre o tema e também repensar a própria situação atual do Brasil. Nosso país já foi o sonho de milhões e pode (e deve) voltar a dar oportunidade e esperança a todos, os que aqui estão, os que foram embora e os que pensam em encontrar um novo lar para estabelecer a vida e pensar o futuro.





